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Os movimentos de desinvestimento do BNDESPAR a partir de 2017 e a proposta corporativa de estimular o mercado de capitais nacional dão indícios de que o banco entendeu que o papel recente de sua carteira de renda variável se esgotou.

Caminhando para 70 anos de existência, é inegável a decisiva participação do BNDES em diferentes momentos, como na industrialização durante o Plano de Metas e o II Plano Nacional de Desenvolvimento, passando pela participação nas privatizações dos anos 90 e chegando à atuação anticíclica e de consolidação de grandes empresas nos anos 2000. Trata-se de uma trajetória que deve alavancar novas oportunidades para o desenvolvimento.

Se sua função anticíclica e de apoio aos campeões nacionais colocaram o banco na berlinda, o momento enseja uma reflexão sobre sua forma de atuação. Começando pelo BNDESPAR, com uma “dor de cabeça” cujos remédios demandam um novo olhar para o futuro, que não pode estar desassociado da busca pelo desenvolvimento socioambiental e da inovação tecnológica nacional.

Os sintomas que mais chamam atenção são resultado de volumosos investimentos e participações acionárias mantidas por longos períodos em gigantes como JBS, Petrobras e Vale, que além do porte, se assemelham pelo envolvimento em controvérsias ambientais, sociais e/ou de governança (ASG). Dos R$ 62 bilhões desembolsados pelo BNDESPAR entre 2008 e 2017, destacam-se os R$ 24 bi utilizados na subscrição de ações da Petrobras para exploração do pré-sal, a partir de um repasse do Tesouro. JBS, Marfrig, Fibria, Vale, Odebrecht e Oi receberam juntas quase metade dos outros R$ 38 bi desembolsados pelo banco no mercado de capitais. Após 2015, estes recursos caíram drasticamente.

Sob a perspectiva socioambiental, cerca de 30% dos investimentos foram destinados a setores de alto potencial de impacto negativo, e outros 40% a setores cujas atividades executadas pelas empresas têm relevante possibilidade de gerar impacto negativo, dependendo da localização e porte. Mas e agora?

O diagnóstico aponta para alternativas que evitem concentração de renda, com menor participação em empresas que já tenham capacidade de captação de investimentos de outras fontes. Teses de investimento e tomadas de decisão que incluam a lente socioambiental e aumentem os instrumentos disponíveis para inovação em potenciais nacionais, como a biodiversidade e os processos ecológicos a ela associados, por exemplo, são alternativas de como o BNDESPAR pode ter um papel transformador.

Repensar a participação significativa em grandes empresas ou aumentar o giro desta carteira, disponibilizando recursos para alavancar MPMEs inovadoras, é uma opção para quem quer mais dinamismo e inclusão socioeconômica. Ao contrário do que possa parecer inicialmente, isso não tira o banco do papel de investidor de longo prazo, mas reforça sua contribuição para uma economia alinhada a desafios de médio e longo prazo.

Como maior investidor institucional nacional, o redirecionamento da carteira de renda variável é fundamental para o país, seja diretamente pelos negócios viabilizados ou pelo papel indutor que exerce sobre outros agentes financeiros. O país tem pressa e pede novos capítulos. As questões socioambientais podem ser protagonistas nessa trajetória, direcionando renovadas estratégias para o BNDESPAR.

Colaborou Pedro Bara, especialista em desenvolvimento e capital natural

 

Guilherme Teixeira é consultor da Sitawi Finanças do Bem 

gteixeira@sitawi.net