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Em todas as relações das quais o ser humano protagoniza, em especial no campo social, atreladas às aflições emocionais, é reiterado que qualquer mudança somente seria possível a partir do reconhecimento da necessidade de promovê-la. Na área do meio ambiente essa assertiva não é diferente. Por muito tempo e, ainda hoje, o debate é desfocado pela tentativa de alguns, em colocar em dúvida a real necessidade de se fazer mudanças.

Segmentos inteiros desqualificam ações realizadas a favor do meio ambiente, negando a existência de uma crise. Essas manobras confundem e não colaboram com a implementação de novos modelos de vida em que a conexão entre o ser o humano e o ambiente se dê de maneira harmoniosa. Na maioria das vezes, o campo de origem dessa produção semântica invertida da realidade é aquele que reúne grupos interessados em explorar economicamente o planeta.

Antes essa constatação fosse somente uma questão de linguagem, mas não o é. O filósofo Mikhail Bakhtin assegura que a palavra pode revelar as transições sociais mais intrínsecas à humanidade, ou seja, a forma como verbalizamos nos revelam. Negar uma crise simplesmente porque seria melhor que a mesma não existisse, não ajuda na solução do problema.

Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) criou, em 2015, uma Agenda para ser cumprida até o ano de 2030 e destinou seis objetivos correlatos ao meio ambiente entre os 17 que priorizou como sendo importantes para o planeta, essa instituição quebrou qualquer sentido de irrealidade. Historicamente não há mais espaço para debater se temos ou não um problema. A demanda emergencial é a institucionalização política e cidadã de que como está não é possível continuar e que a religação entre o ser humano e o seu meio é exponencialmente necessária quanto mais o tempo avança.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela ONU, estão na pauta da 19ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto e jogar luz nas questões ambientais é uma missão muito mais do que uma oportunidade temporal ou uma escolha temática. Toda e qualquer ação que contribua para esse debate de maneira a esclarecer o momento da história planetária deve ser amplificado.

Ao chamar a atenção do aquecimento global, da poluição dos rios, da necessidade de consolidação de cidades sustentáveis, do consumo inteligente, da produção de energia renovável e da preservação das áreas verdes, os ODS gritam ao planeta que o ser humano precisa se readequar para garantir uma herança ao futuro. Sem que o ambiente seja visto como nosso único meio de sobrevivência, ainda que não agora, não imediatamente, nossas chances de futuro estão ameaçadas. Não se trata de ficção científica, mas de uma repetição histórica. Na dúvida, leiam o livro “A construção da sociedade autossustentável” de Lester Brown (1985). Uma obra brilhante e mesmo com mais de três décadas, permanece atual. Brown começa sua análise fazendo referência a uma publicação da Revista Science, de 1979, sobre a evolução da sociedade Maia, seu declínio e desaparecimento. Uma leitura mais atenta e é possível ver a história se repetindo.

O cientista político Leslie Lipson escreveu que “entender as coisas é o começo da liberdade porque esta consiste no domínio sobre o meio”. Talvez essa seja a equação mais significativa desse tempo chamado de contemporâneo.

 

 

Adriana Silva é vice-presidente e pesquisadora do Ipccic - adrianasilva@fundacaodolivroeleitura.com.br