Publicado em

O cenário, lá fora, não é de alegria. Já é bem conhecido o aviso da Organização Mundial do Comércio, do terceiro dia deste abril, de que o comércio mundial encolheu 0,3% no último trimestre de 2018 e que neste ano avançará só 2,6%. Portanto, bem menos do que os magros 3% do ano passado, bem abaixo do previsto em janeiro, 3,7% de expansão para 2019.

O Fundo Monetário Internacional foi na mesma linha, logo depois da OMC. O produto bruto do mundo deve subir só 3,3% este ano, 0,2% menos da previsão de janeiro. Isso, claro, se as tensões comerciais, em especial entre EUA e China amainarem, se o Brexit não for muito “irracional” e, se a Europa não desacelerar demais. O Banco Mundial não foi diferente quanto ao rolar das lágrimas pelo desenvolvimento que não haverá no mundo nos próximos tempos.

O que fazer com tantas e tais nuvens ameaçadoras? A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, foi direto ao que interessa dizendo que o “ritmo mais paciente da normalização da política monetária” do Fed (o BC americano) ajudará bastante a dar força ao crescimento do mundo nos próximos meses. Em outras palavras, pediu educadamente que o Fed nem pense em subir os juros. Nada diferente do que exigiu o presidente Trump ao BC dele, em tom bem menos civilizado.

Em evento na cidade de Dallas, a ex-presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, foi mais dura quanto à falta de modos do senhor Trump. Motivo: o presidente pretende nomear para a diretoria do Fed, o comentarista político Stephen Moore e o executivo de restaurantes Herman Cain, dois aliados de longos anos. Yellen não disse em nenhum momento o nome deles, mas avisou: “será difícil entrarem com uma visão política e terem algum sucesso”. Será?

A The Economist falou nesta semana em “interference day”, sobre os riscos que correm os bancos centrais na era do populismo. Lembrou do que aconteceu nos anos 1970, depois do colapso do sistema monetário de Bretton Woods que organizou o mundo pós Segunda Guerra. O populismo impediu nos loucos anos 70 a reação à inflação e a conta foi dura. Hoje a conta é, talvez, um pouco mais grave porque não se sabe o que fazer com um mundo econômico que não cresce, nem o que poderia, nem o que deveria, desde 2008. O ataque de Trump ao Fed, portanto, tem um único alvo: sua reeleição.

Nada é diferente no Banco Central Europeu(BCE), como insistiu a Economist. O encontro do populismo radical italiano, francês e alemão, semana passada em Milão, selou a plataforma “Europa das Nações e das Liberdades”. Um dos alvos dessa plataforma é a era Mario Draghi, o presidente do BCE que conteve o caos desde 2008SP . A Economist notou que o mandato de Draghi termina em outubro, junto com a nova eleição da Comissão Europeia. A eleição para o Parlamento Europeu de 23 de maio poderá ser o começo de “levante” populista contra o BCE. Por esse conjunto de razões a revista britânica fala no risco de um “interference day”. Global e regado a populismo.

O curioso é que com esse clima no mundo avança no Brasil (em que o IBC-Br recua pelo segundo mês) um projeto que concede independência ao Banco Central do Brasil. Com espetacular lista de liberdades, de quase tudo que nunca teve, inclusive de ter papel exclusivo para formular e executar a política cambial. O timing em relação ao mundo desse projeto é, no mínimo, inusitado.

 

 

 

Leonardo Trevisan é professor de economia da PUC-SP e da ESPM - ltrevisan@espm.br