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Um dos mais notáveis períodos da história da arte é sem dúvida alguma o renascimento italiano na sua abrangência humanista, uma plêiade dos maiores artistas realizou uma evolução estética inigualável, entre os séculos 14 e 16, prevendo lances científicos além de arrojos artísticos que até hoje influencia o olhar estético da humanidade.



A Itália possui o maior acervo artístico do planeta, em nenhum outro lugar se encontra tanta arte desde a arquitetura ao urbanismo de várias cidades, as obras existentes nos museus e nas coleções particulares são assombrosas, a própria cidade de Florença é um museu a céu aberto, só para citar um dos centros do renascimento. Percorrendo a península itálica do norte ao sul, encontram-se diversas cidades e vilarejos que são espetaculares, pois guardam no seu seio obras marcantes de diversos períodos históricos compondo um painel dos mais atraentes e comoventes.



Num momento em que a reflexão dever ser uma das prioridades, num mundo complexo e repleto de confrontos e atritos, apreciar a belíssima mostra “Mestres do Renascimento, Obras-Primas Italianas” aberta no Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112, centro) vem bem ao encontro de um público que necessita elevar a alma possibilitando um contato revelador das virtuosidades pictóricas de geniais artistas. Formada por mais de 50 obras primas pertencentes a expressivas coleções italianas de arte tanto públicas como privadas, faz um enfoque realçando a extraordinária riqueza da arte peninsular no ápice do Renascimento. As obras expostas como pinturas, esculturas e desenhos foram escolhidas com a finalidade de dimensionar o percurso do movimento renascentista em toda a Itália.



Ocupando os quatro andares do CCBB, apesar de não ser o espaço ideal para uma mostra desse porte, em virtude das acanhadas salas existentes no belíssimo prédio projetado por Alfredo Pujol; o visitante se defronta com obras representativas da época renascentista.



Deve-se também observar que na época do Renascimento, a Itália não era um país unitário como a França ou a Inglaterra, e sim dividido em vários estados cujas capitais eram as cidades mais importantes como Milão, Veneza, Florença e Roma, além é claro de outras cortes, todas plena de riqueza e refinamento.



Núcleos difusores da arte



Florença foi o berço do Renascimento com todo o seu desenvolvimento cultural, concentrando uma infinidade de artistas como Rafael que após certo período se mudou para Urbino para finalmente se estabelecer em Roma. Ícones deste fantástico período como Ticiano, Leonardo da Vinci, Michelangelo como o próprio Rafael fizeram uma revolução, tendo percorrido outras cidades tanto do norte como do sul vitalizando a arte com uma produção intensa e de alto nível.



No quarto andar o destaque é Florença que de certa forma inspirou artistas como Donatello  que na escultura abriu novas perspectivas, com seu apurado olhar para o classicismo da antiga Roma, desenvolvendo uma obra ímpar, enquanto Andrea del Verrocchio com sua criatividade influenciou toda a Toscana, sem esquecer dos seus seguidores Botticelli e Ghirlandaio, que além de alunos, chegaram ao nível supremo, sendo admirados como os pintores mais expressivos da corte dos Medici. A grande força da arte criada em Florença deve-se ao extraordinário apoio dos mecenas da cidade no século 15. A importância de Leonardo da Vinci como de Michelangelo é irrefutável tanto na pintura como na arquitetura, na escultura e na poesia, além é claro dos projetos incríveis como a construção de uma fortaleza defensiva.



Na sequência o próximo núcleo do terceiro andar é a cidade de Roma que ganha destaque no período de sua reconstrução nos anos 1460 e 1470, com a volta dos papas de Avignon. No ano de 1481, foi iniciada uma campanha para a decoração da Capela Sistina, construída pelo papa Sisto IV, proporcionando uma notável  profusão de afrescos no Vaticano. A presença de Michelangelo e Rafael na cidade eterna estimulou uma série de mudanças culturais marcantes. Surge o maneirismo romano como bem caracteriza as últimas obras de Rafael, uma resposta à produção madura de Michelangelo. Destaca-se também uma curiosa obra, o desenho da Porta Pia concebida por Michelangelo que serviu de referencia para a arquitetura monumental refletindo na própria obra de Bernini.



Em Ferrara e Módena , mestres como Ludovico Mazzolino, Girolamo da Carpi e l’Ortolano que também atuavam em  Bolonha estavam vinculados à uma visão clássica reflexo das influencias de Perugino. Obras de Dosso Dossi, de Battista Dossi e de Benvenuto Tisi conhecido como Il Garofalo se destacam neste núcleo onde o naturalismo na pintura é a grande característica dessa região da Toscana.



Veneza com todo o seu refinamento paisagístico e glorioso perfil histórico teve importantes artistas que criaram obras exponenciais no “quattrocento” e no “cinquecento” como Giovanni Bellini, Ticiano, Tintoretto, Il Bassano, Il Veronese, Giorgione, Cima de Conegliano, Vittorio Carpaccio e Alvise Vivarini, que podem ser admiradas na presente mostra. Milão por sua vez, com a chegada em 1483 de Leonardo da Vinci, marcou uma reviravolta cultural alcançando um nível refinado altíssimo. A obra “Leda e o Cisne” de Leonardo reflete a importância daquele tempo como as obras de Marco d’Oggiorno: o impecável “San Giovanni Battista” e a adorável “Madonna Litta”.