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As redes sociais e a conectividade deram voz a todos, todos mesmo. Não interessa se você está em uma grande metrópole ou em uma cidadezinha de 2.000 habitantes, você pode falar para o mundo. Não importa se você não estudou ou concluiu um doutorado, você pode falar para o mundo. Não interessa se você é rico ou pobre, você pode falar ao mundo. Esse “microfone” chamado rede social democratizou muita coisa. Mas sem dúvida, o direito de se fazer ouvir foi a maior delas.

Já disse aqui e repito – isso é lindo! Gosto mesmo. Acho esse momento histórico incrível, sobretudo porque ele permite, como nunca antes na história, uma mobilidade social fantástica. Fico encantado ao ver um jovem pobre, que vive em uma cidade que nem sabemos onde fica, criar um canal no youtube ou um perfil no Instagram e virar celebridade. Acho isso o máximo!

Mas como sempre digo, a mesma faca que corta um pão pode matar uma pessoa. A culpa não é da faca, mas da mão que a usou para um ou outro fim. Estamos ainda, mesmo as eleições presidenciais já tendo ficado para trás há algum tempo, com resquícios fortes da polarização política que vivemos no ano passado. O clima nas redes sociais está pesado e as pessoas estão tão (ou mais) exaltadas do que no ápice da campanha. Tenho o hábito de, ao ver um post polêmico ou com uma notícia relevante sobre o tema, entrar e ler alguns comentários. Jesus! O bicho pega ali. Dá para dar, inclusive, boas risadas.

Mas o que me fez trazer este tema hoje não foi o fato em sim, mas as possíveis posturas que podemos ter nesse momento. Não quero ser repetitivo, mas preciso repetir que tomei uma decisão já há algum tempo: não me manifesto ou discuto temas polêmicos nas redes sociais. Não acho que ali é lugar para debates desse tipo. Respeito quem o faz, mas digo sempre aos meus alunos que os contras são muito (muito mesmo) superior aos prós.

O meu silêncio em relação a tais temas nas redes sociais me deixou algumas lições. A primeira foi que não briguei com ninguém em público. Já fiz isso no passado e não foi nada legal. A segunda, bem importante, foi que não saí em defesa de ninguém e depois queimei a língua, como muitos. Como o mundo dá voltas e as pessoas podem nos decepcionar, tê-las defendido em público pode gerar um baita gosto amargo na boca quando elas aprontam. A terceira, creio que a mais importante, foi que consegui analisar todos os fatos com mais isenção, menos emoção e, portanto, tirar melhores conclusões. O fato de não estar na conversa nos permite ouvir melhor e pensar com mais profundidade sobre cada ponto de vista. O equilíbrio emocional, competência importantíssima hoje em dia, é o lastro para não nos deixarmos levar pela mente perturbada, sangue fervendo e falas desastradas.

Como disse Yuval Harari no seu último capítulo do fantástico livro “21 lições para para o século 21, “Apenas observe”. Precisamos, mesmo com o microfone das redes sociais 24 horas por dia na boca, observar mais, falar menos e pensar mais. Quanto mais exercitamos isso, mais preparados ficamos para o momento em que um debate olho no olho se apresente. Aliás, debater olho no olho, com um bom café ou um bom vinho na mesa, é muito, muito mais legal. Até o próximo!