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Notoriamente aliados no cenário geopolítico, Estados Unidos e Israel apresentam muito mais coisas em comum. Ambos os países são, atualmente, anfitriões dos mais prestigiados congressos de tecnologia e inovação. Desses eventos estão partindo as novas tendências de profundo impacto para as relações humanas e, em especial, para as áreas da saúde e ciências médicas.

Há poucas semanas, Austin, a capital do Texas, recebeu a SXSW 2019. Além de reunir influentes profissionais e empresas ao longo de seus dez dias, o maior evento de inovação e criatividade do mundo também reconheceu os empreendedores mais promissores por meio de uma disputa entre startups.

Dentre os premiados, as health techs alcançaram os três primeiros lugares, apostando em novas soluções para facilitar o diagnóstico e ampliar o acesso a tratamentos. A vitória garantiu, às três, viagens para o Global Entrepreneurship Summit 2019, que ocorrerá em junho deste ano na Holanda, além de mentoria do laboratório Sandoz.

Grande vencedora, a Proov Test, criada pela empreendedora Amy Beckley, doutora em farmacologia, identifica o nível de progesterona da mulher após um exame de urina, que pode ser feito em casa. O resultado sai em cinco minutos e permite avaliar se a mulher está ovulando corretamente e se seus hormônios permitem a gravidez. O produto já é vendido no site da Amazon.

A segunda colocada foi a Hera Health Solutions, focada em aperfeiçoar medicamentos de uso prolongado, entre os quais anticoncepcionais biodegradáveis. A ideia é evitar que os pacientes deixem o tratamento de lado depois de um tempo. No terceiro lugar ficou a Med Saf, uma plataforma online para a venda corporativa de medicamentos. Fundada pela nigeriana Vivian Nwakah, a empresa nasceu a partir da morte de seu amigo por causa da ingestão de um remédio falsificado.

Enquanto o público norte-americano despedia-se desse festival, uma conferência internacional do setor de saúde digital mobilizava mais de 2 mil executivos e profissionais em Tel Aviv. Na agenda de debates, destacaram-se a medicina personalizada e o gerenciamento de saúde populacional.

Israel é reconhecido mundialmente como um centro de inovação em saúde digital, com mais de 450 empresas ativas no setor e pioneiras em soluções que combinam medicina preventiva, telessaúde e big data. Recentemente, o governo local orçou um aporte de US$ 280 milhões destinados à pesquisa acadêmica e mudanças regulatórias para desenvolver ainda mais essa indústria. No período de três anos até setembro de 2018, as startups que militam nessa área atraíram US$ 800 milhões de investimentos.

Em sua quinta edição, o MEDinISRAEL trouxe 60 expositoras com as mais diferenciadas tecnologias. A AlephBot, por exemplo, desenvolveu um sistema de inteligência artificial para documentar os procedimentos clínicos em tempo real. Com isso, os médicos recebem depoimentos completos e precisos após cada procedimento dos pacientes.

Já a NE Field Diagnostics oferece uma solução de diagnóstico para testes e acompanhamento da função pulmonar, por meio de um dispositivo portátil conectado aos smartphones dos usuários. A empresa pretende auxiliar pacientes com doenças como asma a promover o automonitoramento da saúde, uma conduta-chave na redução de custos e do número de hospitalizações.

Boas práticas e inspirações não faltam ao Brasil, que convive com desafios como a geografia continental e a falta de acesso à saúde. Pelos cálculos da Organização Mundial de Saúde (OMS), há 17,6 médicos para cada 10 mil brasileiros, bem menos que na Europa, cuja taxa é de 33,3. Em 2018, apenas 3,6% do orçamento do governo federal foi destinado à saúde – percentual bem abaixo da média mundial de 11,7%.

Soma-se a isso a cultura digital contraditória do país. Enquanto há mais de um smartphone ativo por habitante, parte da classe médica ainda reluta em fomentar a telemedicina no Brasil. A resolução nº 1.643/2002 do Conselho Federal de Medicina restringe consultas à distância diretamente entre profissionais de saúde e pacientes.

As novas tendências servem de lição e devem moldar o ciclo de investimentos. Mas, para isso, governo e órgãos reguladores devem fazer sua parte. Somos o oitavo maior mercado de saúde do mundo, que movimenta R$ 500 bilhões por ano. Hoje, a inteligência artificial é consenso: pode salvar mais do que uma vida. Pode também alavancar a economia de toda uma nação.