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Após uma década, o Brasil prepara-se para realizar um novo censo demográfico. Nas projeções do IBGE, o percentual de idosos chegará a 9,5% em 2020 e a 25,5% em 2060. Mas, nos últimos anos, esse envelhecimento acelerado tem se tornado parte do pesadelo do sistema de saúde privado.

A longevidade carrega com ela uma série de patologias crônicas e outras doenças que acometem os idosos e elevam o custo assistencial para as operadoras de saúde. De acordo com o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), o mercado de planos de saúde médico-hospitalares encerrou o primeiro trimestre deste ano com 47,1 milhões de usuários. Desse universo, 80,5% estão vinculados a planos coletivos (empresarial e por adesão).

Para os principais custeadores em nosso país – governo e iniciativa privada – o problema é alarmante. Uma pesquisa da Aon, empresa de seguros e avaliação de riscos, demonstra que os custos com planos de saúde contratados pelas empresas para seus funcionários devem subir neste ano quatro vezes mais que a inflação oficial (IPCA), projetada em 4,04% pelo Boletim Focus. A alta média no Brasil representa quase o triplo da China (6%) e do Canadá (6%), por exemplo.

Hoje, a assistência médica é a segunda maior despesa de uma empresa, respondendo por 15% da folha de pagamento. Há 20 anos, porém, esse percentual girava em torno de 2% a 3%. Neste cenário negativo, torna-se cada vez mais desafiador para a classe empresarial arcar com o benefício e estendê-lo aos outros 21 milhões que, mesmo empregados com carteira assinada, não dispõem de convênio médico. Especialmente para as PMEs, que já se veem pressionadas a participar, de alguma forma, na solução dos problemas de saúde de seus colaboradores.

Não bastassem os encargos e a inflação médica, repassados ao paciente, os planos de saúde no país ainda assistem à migração de usuários para o Sistema Único de Saúde (SUS). Só nos últimos três anos, foram 3,1 milhões de beneficiários, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Estamos diante de um modelo insustentável, em colapso, e que alcança somente um quarto da população.

Mas o problema tem solução? Talvez sim, mas exige das empresas protagonismo e olhar de longo prazo, focado na prevenção e novos modelos. Por que investir na cura de uma doença, se podem ser concentrados os recursos em cuidados preventivos, baseados nos novos modelos de assistência à saúde? Um bom exemplo é a união da cultura do autocuidado com as facilidades tecnológicas.

Ou seja, aqueles que desejam conhecer mais sobre sua saúde podem buscar soluções profissionais oferecidas pelos atuais serviços de concierge, entre eles o de orientação médica por telefone, em vez de recorrer ao Dr. Google. Essas são maneiras preventivas para dinamizar o atendimento clínico.

No entanto, prevenção também pode estar ligada ao incentivo ao estilo de vida, à prática de exercícios físicos, alimentação saudável, e, em muitos casos, à garantia de tratamento medicamentoso. De que adianta o acesso à consulta médica e ao receituário se o funcionário não tem condições de comprar remédios para dar continuidade ao tratamento?

Parece contraditório, mas é a mais pura realidade. Em 30% dos casos, o paciente deixa de comprar o remédio prescrito pelo médico por falta de recursos. Além de ser o principal motivo de absenteísmo ligado à saúde nas empresas, a interrupção do tratamento agrava o quadro clínico e leva à internação, um procedimento muito mais caro que o próprio remédio. No fim das contas, o fator agravante faz com que as operadoras de saúde tenham custos maiores.

As organizações pagam planos odontológicos, mas não oferecem aos seus colaboradores subsídios por meio de planos de benefícios de medicamentos (PBM). Enquanto os convênios médicos somam 47 milhões de usuários, estima-se que apenas 5 milhões contam com os PBMs, programas pelos quais as empresas arcam com, no mínimo, 50% dos gastos em remédios prescritos pelos médicos de seus funcionários. Ainda que estejamos quase meio século atrás dos Estados Unidos nessa estratégia, a adesão ao plano medicamentoso naquele país supera os 200 milhões de usuários. Aliás, diga-se de passagem, esse modelo é totalmente diferente do convênio farmácia, que geralmente oferece descontos em alguns produtos farmacêuticos e débito integral na folha de pagamento, mas que tem se mostrado ineficaz.

É fato também que o ambiente regulatório no Brasil ainda não é o mais favorável, mas só com os nossos programas de gestão de PBM, conseguimos assegurar às corporações atendidas uma economia anual estimada em R$ 751 milhões. E isto sim é saudável e estratégico.

Nas grandes empresas, em que as áreas de recursos humanos são mais estruturadas, o investimento na cobertura medicamentosa está sendo bem difundido, mas o modelo pode e deve ser seguido pelas pequenas e médias corporações. Há opções no mercado que preveem subsídios em medicamentos para empresas que tenham a partir de 30 funcionários. Planos pré-pagos, por exemplo, possibilitam à empresa ter uma previsão orçamentária. Estabelecem valores fixos mensais para a cobertura dos medicamentos prescritos ao colaborador e a dependentes, cobrindo 98% das patologias tratáveis em ambulatórios.

Faltam incentivos fiscais do governo, mas esse é com certeza o caminho a ser perseguido na maioria dos países, em especial os emergentes. Já existem operadoras de saúde agindo para oferecer planos com a cobertura de medicamentos ambulatoriais prescritos, amparadas por uma norma da ANS.

Por meio dela, estão autorizadas a oferecer o modelo de benefício de forma opcional, com custeio e regras próprias, excluindo-as de qualquer obrigatoriedade. Porque compartilhar soluções entre organizações, operadoras de saúde e usuários é a alternativa global e racional para mitigar custos e minimizar os impactos negativos de uma sociedade cada vez mais longeva.

* Luiz Carlos Monteiro é presidente da ePharma, especializada em programas de benefícios de medicamentos e gestão de saúde