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O candidato Jair Bolsonaro (PSL) prometeu nesta terça-feira (9) que pretende fazer a sua própria proposta para a reforma da Previdência, descartando aproveitar o projeto enviado ao Congresso pelo presidente Michel Temer, conforme havia sido sugerido pelo próprio chefe do Executivo.

Em referência aos servidores públicos, cujas entidades sindicais contam com forte participação de petistas, Bolsonaro disse que vai “acabar com essa fábrica de marajás” e “fazer uma reforma da Previdência justa”. “Tem muitos locais no Brasil que o servidor público tem um salário X e tem um cargo de comissão que, depois de oito e dez anos, ele incorpora (no salário) o cargo de comissão.”

A expressão 'caçador de marajás' foi usada pelo senador Fernando Collor quando se elegeu em 1989 à Presidência da República, derrotando Luiz inácio Lula da Silva (PT) e políticos tradicionais, a exemplo de Ulysses Guimarães.

Para o líder nas pesquisas, o projeto enviado ao Congresso pelo governo Michel Temer não tem chance de ser aprovado. “Acredito que a proposta do Temer como está, se bem que ela mudou dia após dia, dificilmente será aprovada. A proposta deve ser mais consensual.”

Lenta e gradual

Bolsonaro afirmou em entrevista à TV Bandeirantesque, em um eventual governo dele, a reforma da Previdência será tratada "vagarosamente".

"Se você fizer com calma e devagar, você chega lá", afirmou, em entrevista gravada à tarde e exibida à noite no Jornal da Band, ao comentar sobre o ritmo de aprovação da reforma da Previdência. "Não é como muitos querem. Não adianta querer botar remendo novo em calça velha."

Gargalho:serviço público

Na avaliação do candidato, o grande gargalo da Previdência é o serviço público. "Por exemplo, um homem do serviço público se aposenta hoje com 60 anos. Vamos botar 61. Você aprova. Se você botar 65 logo de cara, você não vai aprovar porque a esquerda vai fazer uma campanha enorme, dizendo, por exemplo, que no Piauí a expectativa de vida é de 69 anos de idade", afirmou.

Bolsonaro disse ainda que vai "acabar com as incorporações" salariais no momento da aposentadoria. Ele afirmou também que não pode tratar o policial militar e os membros das Forças Armadas da mesma forma que os outros trabalhadores. "O que não pode é fábrica de marajás", disse.

Só em 2019

O coordenador político da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), disse que a reforma da Previdência não faz parte do programa de governo do militar e que a base do candidato não deve se movimentar, caso ele seja eleito, para a aprovação da reforma da Previdência ainda neste ano.

"Não tem no plano, não tem nas conversas", disse. "O Jair não era a favor dessa reforma e a maioria das pessoas que o apoiaram não são a favor dessa reforma porque ela é ruim. É uma porcaria e não resolve nada", disse.

Segundo o deputado, os programas de governo de Bolsonaro começarão a ser construídos, caso ele seja eleito, em 2019. "Por que no plano de governo do Jair não tem plano específico? Porque isso é uma armadilha que os marqueteiros impuseram aos políticos", disse. "Se o Jair for escolhido, nossas ações iniciam só em 2019", afirmou.

O deputado é cotado para ser ministro-chefe da Casa Civil de um eventual governo do capitão reformado.

O discurso de Onyx, no entanto, é contraditório ao do economista da campanha de Bolsonaro, Paulo Guedes. Em encontro há poucas semanas, organizado por apoiadores de Bolsonaro num restaurante de Brasília, o coordenador econômico do candidato do PSL, Paulo Guedes, disse que vai fazer a reforma da Previdência para acabar com privilégios e as disparidades entre a aposentadoria de servidores públicos e da iniciativa privada.

"Imprescindível"

Em entrevista à coluna, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, afirmou que a proposta da reforma da Previdência de Temer depende somente do presidente eleito. Para ele, a matéira é "imprescindivel" e que a cada dia a conta aumenta.

"O presidente Temer gostaria que a reforma da Previdência avançasse ainda em seu governo, mas não faremos isso sem ouvir o presidente eleito", declarou. "48 horas depois da eleieção, começa a transição e aí vai se estabelecer algum tipo de diálogo para que as coisas possam avançar".

Marun descartou que sejam apresentadas ao eleito propostas em estudo no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social sobre reformas política e tributária.

Para o ministro, o governo tem pressa e quer a aprovação da Medida Provisória 840, que criou a estrutura do Ministério da Segurança Pública.  A não aprovação no Congresso da medida provisória preocupa porque ela perde a validade no dia 17 de outubro.

Diferenças

Por isso, apesar de sinalizações mais recentes de que farão a reforma da Previdência, os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) terão quer dar um 'cavalo de pau' no núcleo político de suas campanhas e enfrentar resistências de auxiliares próximos para conseguirem aprovar uma proposta que mexa nas regras de aposentadoria.

O programa de Bolsonaro defende um modelo de capitalização, em que o governo retira os recursos do trabalhador, mas os coloca em um fundo para ser sacado no futuro, com correção. O coordenador econômico, Paulo Guedes, já lembrou que o presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se ofereceram para tentar votar depois das eleições a proposta de reforma que já foi aprovada em comissão especial.

O programa do PT diz apenas que serão adotadas medidas para combater "privilégios previdenciários incompatíveis com a realidade da classe trabalhadora brasileira" e que um eventual governo buscará a convergência entre os regimes próprios da União, dos Estados, do DF e dos municípios com o regime geral. No último debate da TV Globo, Haddad disse que tiraria da discussão da idade mínima quem ganha até uma determinada faixa de renda e o trabalhador rural.

No PT, a resistência à reforma é grande, inclusive entre os economistas do partido, que divergem sobre a necessidade de encaminhar a proposta. Haddad pretende levá-la adiante, mas o candidato terá de vencer uma briga dentro do partido, que tem uma base sindical contrária à necessidade da reforma e que defende que o problema da Previdência será resolvido com crescimento econômico e cobrança das dívidas das empresas. Outra ala de economistas avalia que não dá para deixar a reforma para depois.

PSol com Haddad

O candidato derrotado à Presidência da República pelo PSOL, Guilherme Boulos, declarou apoio "incondicional" à candidatura de Fernando Haddad (PT) no segundo turno das eleições presidenciais.

Boulos disse que o PT aceitou incorporar em seu programa de governo quatro pontos fundamentais defendidos pelo PSOL no primeiro turno: a punição a empresas que desrespeitem a igualdade de salários entre homens e mulheres; combate a privilégios à cúpula dos poderes; compromisso com ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida; e a demarcação de terras indígenas.

Marcelo Freixo, agora deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro, afirmou que o PSOL não condicionou o apoio a cargos no governo e que a aliança se dá "em defesa da democracia".

Redução ruralista

A Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) calcula que de seus 245 integrantes que considera ativos, 117 continuarão a partir de 2019. Dos 218 deputados, 99 foram reeleitos. Dos 27 senadores da bancada, 18 continuarão os trabalhos. Ainda não é possível calcular a diminuição da bancada, porque há a perspectiva de que novos deputados e senadores eleitos entrem para o grupo.

Há entradas certas: o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS) deixará a Câmara, mas assume vaga no Senado, e deve permanecer com sua atuação na frente agropecuária. Mesma situação dos deputados Espiridião Amin (PP-SC) e Joginho Mello (PR-SC), que foram eleitos ao Senado.

A expectativa dos congressistas era de que houvesse pouca renovação nas eleições de 2018. O cenário não se comprovou. A presidente da FPA, deputada Tereza Cristina (DEM-MS), afirmou que o resultado foi positivo dada a alta taxa de renovação do Congresso.

“Perdemos nomes muito importantes, mas outros virão. Tivemos um relativo sucesso pela grande renovação que terá a Câmara e principalmente o Senado”, disse. A frente conta com o apoio de Bolsonaro para atrair nomes do PSL,  segunda maior bancada eleita na Câmara, para atrair novos nomes à frente. “Precisamos ter muita calma, esperar aguardar esse ano”, afirmou