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Analistas políticos apontaram chances de o ex-prefeito de São Paulo ir para a disputa final, apesar de continuar com 4%  das intenções de votos, como aponta pesquisa do DataFolha

Especialistas apontam que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad já está no segundo turno das eleições presidenciais, se conseguir herdar 50% dos votos do seu padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (22) apontou que Haddad permanece ainda com 4% nas pesquisas de intenção de votos, em um cenário sem Lula, que lidera disparado com 39%, seguido por Jair Bolsonaro com 19%.

Para Alexandre Bandeira, diretor da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP) no Distrito Federal, Haddad já estaria no segundo turno, se conseguir atingir 20% das intenções de votos.

Desde 2002, chegam ao segundo turno os partidos que somam entre 32% a 43%. Mas neste ano, na opinião do analista, o percentual de votos necessários será menor para passar à próxima fase. “A disputa está muito pulverizada”, acrescentou.

Por isso, Bandeira defendeu a estratégia do PT de esticar ao máximo a oficialização da candidatura de Haddad à Presidência para conseguir colocar a imagem de Lula nas urnas eletrônicas e torná-lo o principal cabo eleitoral do partido. O prazo final para a troca de nomes na chapa expira no dia 17 de setembro.

"A ideia é fazer com que esse processo vá além do dia 17, com algum argumento jurídico, para que a foto do Lula vá para a urna. Isso mantendo a possibilidade de trocar pelo Haddad como candidato", disse à coluna.

Limite

Há, porém, a ameaça de a estratégia virar um “tiro no pé” em razão de retardar a maior exposição de Haddad, inclusive com a ameaça de perder espaços no horário gratuito de rádio e TV, que começa no dia 31.

É o  que também acredita o analista político e diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Queiroz. Na avaliação dele, a legenda tem esse prazo para apresentar o sucessor do ex-presidente na disputa eleitoral.

Quanto maior o tempo de espera para a "substituição", menores os percentuais de votos transferidos de Lula para Haddad. "Eles precisam anunciar antes dos principais debates e, se possível, do início do horário eleitoral", afirmou à coluna.

Caso a sigla demore para reajustar o quadro que irá participar do pleito eleitoral, a tendência é que outros candidatos, principalmente Marina Silva (Rede), Guilherme Boulos (Psol) e Ciro Gomes (PDT) avancem sobre os eleitores que até o momento acompanham a decisão de Lula.

"E isso seria péssimo para o PT, que hoje, se anunciar Haddad, consegue transferir 50% dos votos de Lula e colocá-lo direto no segundo turno das eleições", analisou Queiroz.

Sobrevivência

Para o cientista político Ernani Carvalho, da Universidade Federal de Pernambuco, o que está em jogo também nessas eleições para o PT é a própria sobrevivência do partido.

“Lula, encerado e candidato, mantém a militância ativa e causa repercussão positiva aos demais candidatos do PT”, analisou.

No entanto, para o especialista, isso não quer dizer que vai haver transferência linear. “Estudos políticos mostram que a transferência de votos não é tão simples”, alertou,

Ainda assim, Carvalho destacou que há grande “nostalgia” e “saudades” no Nordeste em relação aos governos Lula, “Houve, no período de Lula, políticas sociais mais estruturantes e alavancagem econômica no Nordeste.

Haddad é Lula

Colar Lula à imagem de Haddad é uma das estratégias montadas pelo PT para facilitar a substituição. Já haveria até vídeos em que Lula aparece dizendo “Eu sou Haddad”, e, em seguida surge Haddad identificando-se como o ex-presidente: “Eu sou Lula”.

Haddad começou o seu giro pelo Nordeste nesta terça-feira na Bahia, maior colégio eleitoral da região (10,4 milhões de eleitores), onde fez campanha ao lado do governador petista e candidato à reeleição, Rui Costa, e do ex-ministro Jaques Wagner, candidato ao Senado que também era cotado como plano B do partido para substituir Lula.

Empresários e advogados dominam candidaturas

Ambas as profissões são as mais comuns entre os candidatos que se registraram para o pleito deste ano. os 27.566 registros computados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até o fim da tarde de sexta-feira (17/8), 2.835 eram de empresários, enquanto 1.741 foram apresentados por advogados. Sozinhas, as duas categorias representam 16,6% do total de candidaturas.

Os dados apresentam aumento em relação às eleições de 2014, quando 2.125 postulantes trabalhavam no exercício do direito e 1.263 atuavam na gestão de empresas. Àquela época, advogados e empresários também foram as ocupações mais citadas. Há quatro anos, o número final de candidatos também foi menor: 22.384 tentaram cargos eletivos.

O grupo dos advogados inclui o presidenciável Ciro Gomes (PDT), formado em direito pela Universidade Federal do Ceará em 1962, além do candidato a vice-presidente na chapa de João Goulart Filho (PPL), Léo da Silva Alves. Entre os postulantes a governos estaduais, são 20 advogados. Incluindo, Ibaneis Rocha (MDB), que tem o maior patrimônio entre os 11 candidatos na disputa pelo Executivo no Distrito Federal: R$ 93,7 milhões.

No conjunto dos que se declararam empresários, estão o candidato à Presidência Eymael (DC), e o vice na chapa de Henrique Meirelles (MDB) ao Palácio do Planalto, o ex-governador do Rio Grande do Sul Germano Rigotto (MDB).

Ao todo, 214 profissões foram declaradas pelos candidatos ao pleito de 2018. Entre os cargos no ranking dos mais citados, aparecem ainda deputado (1.134), vereador (936), comerciante (935), professor de ensino médio (759), servidor público estadual (706) e médico (666).

Militares nas urnas

Será maior também o total de militares que participarão da corrida eleitoral. O número cresceu 11% na comparação entre 2018 e 2014, de acordo com o TSE. Em 2014, 888 candidatos declararam ser militares ou militares reformados (aposentados). Em 2018, esse número chegou a 990. Se fossem agrupadas, as ocupações militares estariam em quinto lugar no ranking das profissões com maior número de candidatos.

O crescimento das candidaturas militares foi maior do que o aumento no volume de candidatos no período, que foi de 6,4%. Estudiosos dizem que a crise política e o aumento da violência no país alimentam esse tipo de candidatura.

Na última segunda-feira (20), o TSE disponibilizou os dados consolidados sobre os registros de candidatura feitos até o dia 15, data final estabelecida pela legislação eleitoral. Essas informações podem sofrer alterações caso haja desistências ou impedimentos por via judicial.

Com 990 candidatos, os militares só perdem para deputados (1.133); advogados (1.735); empresários (2.816); e o grupo genérico "outros", que totalizou 5.174 candidatos.

Na comparação com 2014, houve um aumento de 68% no número de militares reformados que se candidataram a algum cargo eletivo neste ano. Foram 127 e 2014 contra 214 em 2018. Os membros das Forças Armadas (Exército, Aeronáutica e Marinha) somaram 58 quatro anos atrás. Neste ano, são 82, um crescimento de 41%.

Apesar de esses dois grupos terem puxado o crescimento das candidaturas, o grupo com maior número de candidatos entre os militares são os PMs. Em 2014, foram 576 PMs candidatos. Em 2018, eles são 594, um crescimento de 3,1%. Isoladamente, os PMs aparecem como a 12ª ocupação mais comum entre os candidatos brasileiros.