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Estive recentemente em Xangai por três semanas. Obras por todo lado, um oceano de gruas, guindastes, escavadeiras e canteiros. O que parecia novo, se torna rapidamente velho, libertando espaço para mais modernidades. A prosperidade de teor capitalista se faz presente por todo lado, nas ruas, nos shoppings, nos viadutos, nos transportes, na habitação e nos parques. Aparentemente felizes, os habitantes locais falam frequentemente sobre valorização imobiliária, carros elétricos e rápida transformação da paisagem urbana.

A China era um país pobre até as reformas econômicas de 1978. Seu PIB per capita era, naquele momento, equivalente ao da Zâmbia e estava abaixo da média dos países asiáticos e da maioria dos países africanos. Em quarenta anos, a China aumentou seu PIB per capita em quase cinquenta vezes, impondo taxa média de crescimento do PIB em algo próximo a 10% ao ano no período. Por trás dessa evolução está a fórmula econômica chinesa de “guerra contra a pobreza”. Da regulação do investimento estrangeiro direto (IED) em favor do desenvolvimento nacional a obrigatoriedade de formação de joint-ventures entre empresas estrangeiras e parceiros locais, o Estado participa amplamente da atividade econômica. Cuida dos acordos para transferência de tecnologia, da pesquisa e da inovação, da localização geográfica do investimento estrangeiro e da liberação de crédito para obras de infraestrutura. Esse “Capitalismo de Estado” também organiza o sistema financeiro nacional e dá sentido ao fluxo do investimento produtivo, por meio do gerenciamento de gigantescas empresas de energia, siderurgia, petroquímica, ferrovias, telecomunicação, sistema bancário, entre outras representantes de setores-chave do desenvolvimento econômico. O alicerce de toda essa obra é a presença de monumental demanda doméstica – ávida por consumo e conforto de perfil capitalista –, e de agressiva orientação da atividade produtiva para exportação.

Mas o rápido e intenso progresso econômico historicamente apresenta seus custos. Um deles - pesado - diz respeito a poluição, do ar, da água e do solo. A China se tornou, nas últimas décadas, recordista na emissão de gases de efeito estufa, dadas sua rápida industrialização e sua matriz energética assentada no uso do carvão. Tal quadro fez com que o governo chinês iniciasse, em 2014, uma “guerra contra a poluição”, através de uma série de “iniciativas verdes” apresentadas a partir de então. Alguns destaques em curso: (I) redução do uso das centrais de carvão em contrapartida ao uso crescente das energias solar e eólica. O país hoje possui o maior programa de instalação de turbinas eólicas do planeta. (II) Estabelecimento de planos e metas governamentais que exigem que aproximadamente 50% de todos os novos edifícios sejam certificados como “verdes” (green building), o que significa a adoção de tecnologias e soluções de construção e de uso ambientalmente sustentáveis. Cidades como Wuxi, Suzhou, Xangai, Pequim e Shenzhen, mais ambiciosamente, já exigem que todos os novos edifícios comerciais sejam certificados como edifícios verdes. (III) O governo chinês determinou que, em 2025, 20% dos carros em circulação na China deverão ser elétricos ou movidos a combustíveis alternativos. Como pano de fundo estão sendo realizados enormes investimentos no setor além da aplicação de nova legislação e incentivos fiscais. Como exemplo de ação, em certas localidades o governo “presenteia” o cidadão local que adquiriu um carro elétrico com a placa do veículo (equivalente ao nosso licenciamento, que na China facilmente ultrapassa o patamar de R$ 50.000,00 em carros novos à combustão). Em 2017 foram vendidos 1,2 milhões de carros elétricos no planeta, dos quais metade apenas para o mercado chinês. A previsão é que em 2018 a frota de elétricos atinja 8% do total de veículos em circulação no país. Já é muito comparativamente a qualquer outro país.

Nas últimas décadas, o “Capitalismo de Estado” chinês se mostrou, em linhas gerais, rápido e eficaz na obtenção de resultados produtivos e financeiros, marcando o nascimento da nova potência econômica global. O desafio mudou: introduzir responsabilidade socioambiental e dar sustentabilidade ao intenso ritmo de crescimento e transformação estrutural do país. Recente estudo da Universidade de Chicago mostra que, de 2014 até o presente, a China já conseguiu reduzir em cerca de 30% a concentração de materiais particulados no ar de grandes cidades. Novamente a China impressionará o mundo? Aposto que sim, e sob a condução de um Estado forte.