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Qual o papel dos recursos políticos no êxito de uma empresa? Que importância tem a relação empresa-governo no sucesso de um negócio? No Brasil da Operação Lava Jato e de inúmeros escândalos envolvendo o cruzamento indevido de interesses empresariais privados e estruturas do poder público, discutir tal temática pode soar como algo indigesto ou mesmo “fora de lugar”. No entanto, há muitos indicativos – históricos e práticos – de que essa relação é importante para o êxito empresarial e de que ignorá-la ou reduzi-la pode ser um “passo para trás” no desempenho dos agentes econômicos envolvidos, empresas e governo. Proponho então breve reflexão para geração de insights sobre o assunto.

Há muito tempo a temática do êxito empresarial é alvo de estudos, livros e artigos voltados para todo tipo de público: acadêmicos, empreendedores, executivos, aqueles que sonham com o negócio próprio, curiosos. São trabalhos que analisam os chamados “cases de sucesso” da atividade empresarial: falam da análise macroambiental, de modelos de negócios, de fatores humanos, de alianças estratégicas, de inovação tecnológica e de competitividade. Alguns ainda focam em histórias de vida e trajetórias dos gestores, destacando aspectos de vida e life design, liderança e apetite empreendedor. Porém, a maneira como ocorre o relacionamento entre uma empresa e os governos na escolha do mercado e no crescimento e consolidação de suas operações ainda é muito carente de análises acadêmicas e mercadológicas mais profundas, particularmente no Brasil.

Há cerca de trinta anos, Kotler, em artigo na Harvard Business Review, propôs que a dimensão política fosse adicionada aos tradicionais “4Ps” do Marketing, criando o neologismo “Megamarketing”. Desde então, alguns trabalhos acadêmicos buscam incorporar a atividade política corporativa (Corporate Political Activity) como elemento nas estratégias de negócios das empresas: em geral, explicam como as empresas desenvolvem mecanismos de acesso ao meio político no intuito de reduzir riscos operacionais e/ou alavancar seus negócios. Explicam, por exemplo, como as empresas buscam no relacionamento político uma espécie de “escudo de proteção” contra riscos de expropriação, reformas fiscais, mudanças em padrões de financiamento ou mesmo na regulação setorial, entre outros.

Em trabalho mais recente, Keillor, Hauser e Dannemiller (na Innovative Marketing) buscam explorar as relações entre a dedicação das empresas às atividades políticas corporativas e seu desempenho nos mercados internacionais em que operam. Os autores pesquisaram com um grande grupo de empresas multinacionais norte-americanas de diferentes segmentos, todas relacionadas no Standard & Poor’s Corporate Directory. Analisaram sete tipos de atividades políticas corporativas utilizadas por essas empresas: (1) Lobbying; (2) Relações públicas (public relations); (3) Relacionamento com agências governamentais (relationships with government agencies); (4) Incentivos e subornos (inducements and/or bribes); (5) Alianças de políticas industriais (political industry aliances); (6) Contribuições políticas (political contributions); e (7) Relacionamento com agentes do governo e políticos (relationships with individual government officials and/or politicians). Como resultado, os autores concluíram que três atividades políticas foram consideradas cruciais ao bom desempenho (crescimento médio das vendas anuais) das empresas analisadas no período estudado: (A) o lobbying (aqui entendido como prática, por vias legais, de um grupo de interesses no intuito de ser atendido pelo poder público); (B) o relacionamento com agências governamentais; e (C) as contribuições político-partidárias regulares.

Do ponto de vista empresarial, não há dúvida sobre a importância do relacionamento empresa-governo no desempenho dos negócios. Ignorá-lo pode significar para uma empresa a perda de um elemento de vantagem competitiva em tempos de acirramento da concorrência em escala global. Ao governo, pode significar menor oportunidade de estímulo ao desenvolvimento econômico e promoção do bem-estar social no país. Assim, cada vez mais caberá às empresas e aos governos o desafio de construir esse relacionamento em base sólida, ética e legítima. Interesses claramente manifestos pelas partes, uso da governança corporativa, zelo pela transparência, respeito ao marco jurídico-institucional e prática do compliance poderão contribuir muito para isso.