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A visita do presidente Jair Bolsonaro aos EUA pareceu a coroação do desejo de aproximação com a maior economia mundial. A única questão é a forma como se deu. Bolsonaro se colocou a favor do muro na fronteira com o México, exatamente no dia em que entrou em vigor um acordo de livre comércio entre brasileiros e mexicanos, assinado em 2002, que permite a venda de automóveis e autopeças.

Além disso, anunciou que o Brasil pode implementar uma cota de importação de trigo norte-americano, sem tarifas, de 750 mil toneladas anuais, em um aceno ao governo norte-americano, que seria beneficiado pela abertura. O volume soma cerca de 10% do trigo importado pelo Brasil e faz parte de um acordo na rodada Uruguai de negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC), em que o Brasil se comprometeu a importar as 750 mil toneladas sem tarifas anualmente, mas nunca cumpriu. Isso porque a maior parte do trigo que o Brasil compra de fora vem da Argentina, outro parceiro importante, além de Uruguai e Paraguai. No caso dos três países, sem tarifas de importação, dentro das regras do Mercosul. Para outras nações, o Brasil aplica uma tarifa de 10%.

Ou seja, ontem em Washington, Bolsonaro acertou em uma só tacada parceiros importantes na América Latina, e isso pode comprometer outros mercados, especialmente do agronegócio, uma das mais importantes bases do governo hoje no Congresso e que pode ajudar na aprovação da nova Previdência.

De sua parte, o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu dar apoio à entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas, na contraparida, os EUA querem que o Brasil deixe a lista de países com tratamento especial e diferenciado da OMC, que garante benesses no comércio exterior. Contrário a esse benefício, Trump quer terminar com essa lógica dos estímulos, e precisa que o Brasil ajude nessa toada. Resta saber se nesse esforço para agradar Trump, Bolsonaro queimou pontes existentes entre os vizinhos sulamericanos e passou a ajudar a construir um muro de efeito mais moral que físico. Agora, só o tempo dirá.