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Até onde a ciência política ensina, os governos são representantes de todos os cidadãos – eleitores ou não de quem ganhou o poder – para representar um povo e, portanto, tentar mediar os interesses da maioria.

Nos oito primeiros meses do mandato do atual presidente da República, eleito em outubro passado, no entanto, essa conduta sacramentada pela História parece não ter a menor relevância. Ao contrário de buscar acordos e reduzir conflitos, ainda mais em uma sociedade dividida como a brasileira em relação a processos políticos recentes, Jair Bolsonaro (PSL) governa acirrando os ânimos, colocando lenha na fogueira.

A ponto de o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Cláudio Couto, em entrevista publicada ontem neste jornal, usar a metáfora da Amazônia incendiada para demonstrar sua avaliação de que o atual governo pode não terminar o mandato.

“O fogo está aceso, o que falta para atingir o ponto de ebulição é tempo”, declarou Couto, para quem, a maneira como o presidente “se conduz” no cargo levanta dúvidas sobre governabilidade e pode levá-lo ao impeachment.

Além da forte queda de popularidade do governo, da péssima repercussão internacional de seus atos, especialmente as decisões que de alguma forma contribuíram para o avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia, da preocupação das empresas com o boicote global aos produtos brasileiros, existem outros focos de questionamento sobre a sustentabilidade do mandato de Bolsonaro.

E isso é extremamente negativo para um país que há exatos três anos passou pelo trauma de ter um governo – o de Dilma Rousseff (PT) – afastado por um processo de impeachment, continuado por um vice-presidente de baixa força política e que, em dois anos, conseguiu realizar muito pouco diante da ampla demanda do País.

Outro afastamento – seja por processo no Congresso Nacional, por cassação de chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) –, vai amarrar o País. Mas, infelizmente, onde há fumaça, há fogo.