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A aprovação pela Câmara dos Deputados de um reajuste médio de 21,5% para quase 40 carreiras do funcionalismo público federal, elogiada pelo presidente interino Michel Temer, somada a outras propostas e promessas ainda não cumpridas, mostram a dificuldade de encurtar a distância entre o discurso fiscalista da equipe econômica e o pragmatismo da articulação política. A exemplo do que já acontecia nas gestões Dilma 1 e Dilma 2, trocou-se a governança pela governabilidade.

A governança pública, entendida aqui como a capacidade de um governo de criar ou manter as condições financeiras e econômicas que possibilitem a execução de seus planos e metas, é uma medida de eficiência, muito cobrada nos tempos atuais. Já a governabilidade é mais que a transformação do adjetivo governável em substantivo abstrato, com a adição do sufixo "dade". É a busca do equilíbrio político entre poderes, de modo a criar as condições mínimas de exercer o poder.

Ocorre que o desastre das contas públicas, evidenciado pela nova meta fiscal de 2016 com rombo de R$ 170,5 bilhões, exige sacrifícios de curto, médio e longo prazo que os políticos não parecem dispostos a defender - talvez pela proximidade das eleições municipais. Quando questionados sobre mudanças nas regras da Previdência, desvinculação de receitas relativas a contribuições sociais, revisão de cadastro de programas sociais, renegociação de dívidas dos estados e uma possível alta de impostos, as respostas dos novos ministros são sempre evasivas.

Enquanto isso, no mundo real, o número de desempregados alcança 11 milhões de pessoas, o rendimento médio cai, os pedidos de falências crescem 27,5% em cinco meses e o País praticamente comemora o fato de a economia ter caído "apenas" 0,3% no primeiro trimestre de 2016.

Em seu primeiro discurso após assumir interinamente a cadeira da afastada Dilma Rousseff, Temer reforçou a ideia de que só a volta da confiança devolveria o entusiasmo aos empresários para investir na produção e aos trabalhadores em consumir bens e serviços. Mas está difícil confiar nos políticos.