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Façam o que eu digo, não façam o que eu faço. Esse ditado poderia muito bem ser aplicado à contradição entre o discurso e a prática de parte dos políticos brasileiros. Os exemplos são inúmeros, mas um do momento é o debate em torno das verbas públicas para o Fundo Partidário, que financia as campanhas eleitorais das legendas.

Nas últimas décadas, os governos do País se pautaram pela âncora fiscal, ou seja, priorizaram a busca do saneamento das contas públicas, em detrimento dos investimentos em áreas sociais e de infraestrutura, para puxar o crescimento da economia e o desenvolvimento do Brasil. Quase tudo em termos de políticas públicas, econômicas e sociais, giraram em torno desse objetivo.

Se o resultado da criação de tantos mecanismos de controle de gastos foi satisfatório, é questionável. Lei de Responsabilidade Fiscal, teto de gastos, fim de reajustes reais para o salário mínimo e aposentadorias e pensões, aperto em despesas na saúde, educação e ciência e tecnologia. O país passou por tudo isso e continua com um rombo de R$ 139 bilhões neste ano, só do governo federal (déficit primário).

Mas os deputados e senadores, apoiados e pressionados pelos caciques de seus partidos, ignoram a realidade de crise nas contas públicas – dos governos federal, estaduais e municipais –, os cortes orçamentários que deixam os postos de saúde sem os medicamentos mais essenciais para pacientes graves, tira bolsas de estudos de valores módicos de futuros cientistas e tramam o aumento de 48% nas verbas do Fundo.

Com esse aumento, os partidos teriam R$ 2,5 bilhões para financiar campanhas de candidatos a prefeituras e câmaras municipais nas eleições do ano que vem. Ano passado, nas eleições estaduais e federais, o sistema partidário gastou R$ 1,7 bilhão – recursos que saem dos cofres do governo federal e que deixaram de ir para o orçamento de áreas fundamentais para os serviços que a União tem de prestar à população, conforme prevê a Constituição brasileira.

Infelizmente, na prática, a “ilha da fantasia” supera o discurso de legisladores e governo.