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"Tranquilíssimo" foi como Michel Temer definiu sua situação pouco antes de embarcar de volta ao Brasil do encontro do G-20 na Alemanha, sem nem mesmo esperar o fim da reunião. Chegando ao Brasil, passou boa parte do domingo articulando com lideranças do Congresso Nacional maneiras de reverter a tendência da CCJ da Câmara de aceitar a denúncia contra ele por corrupção passiva ou, no mínimo, conseguir uma derrota honrosa. A tranquilidade apenas aparente é só mais um exemplo da explícita dissonância cognitiva do governo federal desde a delação-bomba de Joesley Batista.

Foi o norte-americano Leon Festinger quem desenvolveu nos anos 50 a teoria de psicologia social sobre as escolhas do indivíduo quando confrontado por crenças, conhecimento ou opiniões dissonantes. Exposta a esse embate, a pessoa pode até optar por modificar ou adaptar suas crenças, mas é mais fácil e comum se aferrar e encontrar conforto apenas em suas opiniões já formadas ou reduzir a importância do conflito.

Há vários exemplos da atual distância entre o discurso oficial e as ações do sucessor de Dilma Rousseff. Temer tem enaltecido sua histórica boa relação com os parlamentares e sua confiança na lealdade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mas não deixou de monitorar de perto o noticiário sobre as últimas reuniões de seu eventual substituto com o setor financeiro. Também buscou reforçar os laços com o PSDB, mas por via das dúvidas atuou para fortalecer a defesa de Aécio Neves na Comissão de Ética do Senado.

Na economia, dá testemunhos clássicos de dissonância cognitiva. Dizer que a crise econômica no Brasil não existe, em entrevista na Alemanha, foi uma negação da realidade que só serviu para gerar memes na internet. E enaltecer a queda da inflação como conquista exclusiva da equipe econômica de Henrique Meirelles, sem reconhecer o impacto da fraca demanda nos indicadores, entra como uma meia-verdade apenas um tanto mais aceitável.