Publicado em

Ao se recusar a dialogar com deputados federais e senadores, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) tomou para si vários riscos. Ao não reconhecer que os parlamentares foram eleitos com a mesma legitimidade que o presidente da República, nas urnas, com mandato, Bolsonaro eliminou um dos alicerces mais importantes não apenas do presidencialismo, mas também da democracia.

Com o discurso de que não repetiria o esquema de toma lá dá cá que predominou nos governos anteriores no relacionamento entre Executivo e Legislativo, por considerar esse modelo parte das negociações políticas que resultaram em desvios de conduta e de recursos públicos que culminaram nos sucessivos escândalos nos últimos anos, o atual governo está pagando um preço alto.

Não apenas enfrentando crescente dificuldade de aprovar as reformas no Congresso Nacional – onde centrou sua “bala de prata” para equilibrar o rombo nas contas públicas e retomar o crescimento da economia –, mas também ameaçando colocar água abaixo uma das poucas iniciativas positivas do governo até agora: a reforma administrativa, com a redução do total de ministérios.

Por falta de articulação política, o Palácio do Planalto não só ajuda o dólar a disparar, exigindo a intervenção do Banco Central para conter a desvalorização do real, mas essa semana também será decisiva para o governo manter a atual estrutura ou ter de aumentá-la, em meio à crise fiscal.

Se a Câmara não aprovar a medida provisória com a redução do número de ministérios até esta sexta-feira (24), a tendência é que ela perca a validade, porque dificilmente haveria tempo hábil para aprová-la até 3 de junho.

A não aprovação da reforma administrativa teria impactos graves no funcionamento da gestão Bolsonaro. A repercussão mais forte seria na área econômica, com desestruturação do Ministério da Economia, que agregou as antigas pastas do Planejamento, da Previdência e da Indústria e Comércio Exterior.

Esse episódio, mais as derrotas que o governo Bolsonaro já sofreu no Congresso, indica que, na prática, a teoria é outra. Para todos.