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Ao contrário do que diz o ditado, nem sempre querer é poder. Foi o que aconteceu com os planos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de flexibilizar quase radicalmente as regras para o porte de armas.

O decreto, editado recentemente, deu a maior derrota do Senado Federal ao governo. Em votação anteontem (18) à noite, por 47 votos a 28, os senadores derrubaram a autorização que ampliava as categorias profissionais com direito ao porte de arma, além de outras facilidades.

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), já deu sinais fortes de que a proposta também será enterrada na Casa. Um dos pontos polêmicos do decreto, além da maior abrangência de quem poderá portar armas, é a facilidade da prática de tiro esportivo por adolescentes.

O governo, como era de se esperar, busca alternativas para manter em pé a medida que cumpre uma das mais importantes promessas de campanha de Bolsonaro. Uma saída em análise é amenizar a proposta, mas manter sua espinha dorsal.

Enquanto a solução proposta pelo governo que se elegeu prometendo acabar com a insegurança pública se resume, por enquanto, ao armamento da população, continua o processo acentuado da violência no País. Os números do Atlas da Violência 2018, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), não deixam dúvidas sobre a gravidade da situação.

Em 2016, pela primeira vez na história, o número de homicídios no Brasil superou a casa dos 60 mil em um ano. De acordo com o Atlas da Violência de 2018 , produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o número de 62.517 assassinatos cometidos no país em 2016 coloca o Brasil em um patamar 30 vezes maior do que o da Europa. Só na última década, 553 mil brasileiros perderam a vida por morte violenta. Ou seja, um total de 153 mortes por dia.

Nesse contexto, entregar mais armas à população pode ser – sem trocadilho – vários tiros no pé e no coração dos brasileiros.