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Nos anos 1990, o então deputado federal Germano Rigotto, do PMDB do Rio Grande do Sul, atuante nos debates em torno das várias tentativas de reforma tributária, costumava dizer que a mudança no sistema de impostos e contribuições sociais previsto na Constituição era como uma mulher bonita e interessante, que todos os homens querem namorar e noivar, mas ninguém quer levar ao altar.

A expressão continua muito válida para a reforma tributária, mas também pode ser estendida à reforma mais defendida no momento, a da Previdência Social. Depois do fracasso do ajuste das contas públicas, que ocupou o centro dos governos FHC e Temer, sem ter sido abandonado pelas administrações petistas, de um tempo para cá formou-se no País o discurso predominante de que a saída para o equilíbrio das finanças do Estado é a reforma da Previdência.

Ocorre que, assim como nas mudanças do sistema tributário, ninguém quer pagar a conta e, no final, quem é onerado são sempre os mesmos: a população, especialmente as camadas de baixa e média rendas, que dependem apenas do fruto de seu trabalho para sobreviver. Ao contrário de quem pode pagar uma previdência complementar ou ganha aposentadorias generosas, caso de políticos.

Na reforma da Previdência do presidente Jair Bolsonaro (PSL), o peso das mudanças recairá no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ou seja, o sistema de aposentadorias e pensões dos trabalhadores da iniciativa privada. O ministro da Economia, Paulo Guedes, vem ressaltando que o alvo da reforma é “acabar com os privilégios”, embora não tenha mencionado a inclusão de parlamentares federais, Judiciário da União, carreiras da elite do serviço público do Executivo, nem os militares.

Ontem, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, ressaltou que a reforma da Previdência deve avaliar regras diferenciadas para militares, e defendeu um “adequado amparo social aos militares e seus dependentes”.

Difícil fazer um novo desenho do sistema sem redistribuir os ônus. Sob o risco de que a conta fique somente com “privilegiados” que ganham o teto do INSS, R$ 5.843,40 neste ano.