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A princípio, a cena nem parecia ocorrer no Brasil: centenas de pessoas atacando um acampamento de refugiados, espancando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, derrubando barracas e incendiando pertences. Depois, acompanharam a fuga dos desabrigados para o outro lado da fronteira entoando o hino nacional. Aconteceu neste final de semana em Pacaraima, município do extremo norte de Roraima que se tornou a porta de entrada dos venezuelanos que fogem da fome e do desamparo provocado pelo regime de Nicolas Maduro.

A população local reagiu a incitamentos feitos por redes sociais contra o esgotamento dos já precários serviços públicos locais e o aumento dos casos de violência urbana atribuídos à onda migratória que se intensificou nos dois últimos anos. Segundo dados da Organização Mundial para a Migração (IOM, na sigla em inglês) e da Polícia Federal brasileira, o número de venezuelanos que buscaram abrigo no Brasil saltou de 3,4 mil em 2017 para 35 mil em 2018, mais de 90% deles em Roraima.

O Ministério Público local vem acompanhando casos de xenofobia desde o ano passado. Em julho, cinco brasileiros foram denunciados por incentivar ataques a abrigos de refugiados. Em março, uma briga generalizada na cidade de Mucajaí terminou com dois mortos, um brasileiro e um venezuelano. Uma tentativa de latrocínio contra um comerciante de Pacaraima ocorrida no final de 2016 já gerou uma condenação de um estrangeiro a 13 anos de prisão.

O que tem ocorrido na fronteira brasileira é uma repetição do que se vê pelo mundo: um número elevado de refugiados gera medo e apreensão da população local, um sentimento que é aproveitado por grupos xenófobos e acaba gerando episódios de violência. Em Roraima, a disputa eleitoral complica mais a situação, com trocas de acusações e desvios de responsabilidades. Mas como lembrou recentemente o MP, “a mesma Constituição Federal que preconiza o direito à livre manifestação de pensamento, prevê como crime imprescritível e inafiançável o racismo”.