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Tão perto porém tão distante. O avanço das negociações para um amplo acordo bilateral entre o Mercosul e a União Europeia deixou animados os defensores do livre comércio e os analistas com visão de longo prazo, mas também trouxe de volta a ameaça do protecionismo setorial. As maiores barricadas foram levantadas na França, onde Emmanuel Macron está pressionado pela direita e pela esquerda para manter os subsídios à agricultura local.

O setor agrícola francês teme uma abertura muito radical especialmente às carnes sul-americanas, internacionalmente reconhecidas por sua competitividade em qualidade e preço. Desde dezembro, vazou a informação que os representantes da UE estariam dispostos a ampliar para até 99 mil toneladas o limite de compras anuais de carne bovina e de frango. Na abertura do Salão da Agricultura em Paris, Macron foi recebido com vaias, apitos e cartazes críticos.

O presidente francês até fez acenos ao segmento. Recebeu jovens agricultores no sábado, renovou promessas de manter os bilionários investimentos – ameaçados desde o anúncio do Brexit -, comprometeu-se em impedir a venda indiscriminada de propriedades agrícolas a estrangeiros e disse não abrir mão das exigências sanitárias para o frango importado.

Para s agricultores e populistas de plantão, isso foi pouco. Eles querem manter praticamente na íntegra os subsídios forjados nos anos 60 pela Política Agrícola Comum (PAC), divulgam que até 30 mil fazendas podem ir à falência com a assinatura do acordo e espalham que o número de suicídios na área rural tem crescido anualmente.

Do lado do Mercosul, as queixas são sobre a pouca transparência nas negociações que vão até sexta-feira no Paraguai. As entidades industriais são favoráveis ao acordo, mas querem saber detalhes das contrapartidas pedidas pelos europeus em manufaturados. As discussões se arrastam há mais de 20 anos e pelo jeito vão seguir ao ritmo do minueto, ao contrário do que desejam os presidentes do Brasil e da Argentina. Melhor para os protecionistas.