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Na última sexta-feira, sem festa nem alarde, o real (a moeda) completou 22 anos de circulação no País, uma data que merecia mais atenção porque mesmo com tempos de inflação mais alta ele simboliza a conquista de uma estabilidade financeira que garantiu outros avanços institucionais. Hoje parece algo de simples entendimento, mas não havia à época esperança de que um dia o Brasil voltasse a ter uma moeda que pudesse expressar valor real. No lançamento da nova unidade monetária, em 1994, o presidente Itamar Franco discursou lembrando que todos os processos inflacionários da história se relacionaram com crise políticas e morais. Falava de experiências como a da República de Weimar, na Alemanha, que desembocou no nazismo, mas hoje soa como profecia para o Brasil atual.

Quem viveu os anos 80 e 90 sabe que o roteiro era sempre o mesmo: os governos esperavam até a hiperinflação bater às portas, montavam algum plano mirabolante (de 86 a 94 foram sete), cortavam alguns zeros e relançavam a moeda. Podia ser cruzeiro, cruzeiro novo ou cruzado. A solução sempre se mostrava paliativa porque não se mexia em fontes históricas de indexação dos preços. O resultado era que a inflação voltava, às vezes com mais força, cobrando seu pesado preço em desemprego e desigualdade.

O sonho da estabilidade começou a concretizar no início daquele ano, quando plano de estabilização criou a URV - com regras de conversão e uso da moeda - que preparou o terreno para o real. Críticas políticas davam conta que o plano era eleitoreiro, para alçar o nome do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, à Presidência da República. Isso de fato aconteceu, mas o sucesso do Plano Real foi incontestável.

Sucessor de FHC, Lula compreendeu em seus dois mandatos que manter o poder de compra do trabalhador seria a base de seus planos e esse pragmatismo garantiu sua popularidade. O excesso de gastos públicos, a falta de transparência e credibilidade das contas federais e o artificialismo de tarifas praticado nos últimos anos, sob a gestão de Dilma, quase colocou tudo a perder.