Publicado em

-

É preciso uma dose de má vontade ou apenas cegueira ideológica não admitir que o PSDB foi o grande vitorioso nas eleições municipais. O partido conquistou a administração de mais de 800 cidades, sendo sete capitais e vai governar quase 25% do eleitorado brasileiro, algo perto de 34 milhões de pessoas. Enquanto ainda recebe elogios pelo sucesso de suas estratégias locais e nacionais, o partido vai precisar fazer uma autoanálise para evitar o pecado da soberba, praticado por ele mesmo ao final dos mandatos de FHC e posteriormente pelo PT no auge da era Lula-Dilma.

Nas palavras do ex-governador Franco Montoro ainda na reunião de fundação da legenda em junho de 1988, o PSDB surgiu como uma agremiação que defendia estar "longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas". A nova força política surgiu da dissidência do PMDB alimentada nas tensões da Constituinte daquele ano e escolheu como inimigos o centralismo das decisões internas, o fisiologismo e a corrupção - temas com os quais viria a flertar anos depois. Com a defesa de uma reforma administrativa que privilegiava a eficiência, o partido concorreu no ano seguinte à Presidência da República, com Mario Covas, mas foi atropelado pela candidatura Collor e pela força das esquerdas.

Curiosamente, os tucanos deram um salto em 1992, num momento político similar ao atual: participou do processo de impeachment de um presidente, deu apoio às medidas econômicas do governo do empossado vice (Itamar) e encaminhou reformas que foram cristalizadas na disputa presidencial de 1994, quando FHC chegou ao Planalto. Foi quando o partido se agigantou, acolheu nomes menos ligados ao seu passado histórico, fez coligações com forças mais conservadoras e abandonou parte de suas diretrizes originais.

Neste ano, os tucanos aproveitaram como ninguém a derrocada do PT, com quem polarizavam os debates. Só falta agora transformar tudo isso em força criativa nas novas administrações municipais.