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“Aí sim, fomos surpreendidos novamente” é uma frase imortalizada pelo ex-treinador da Seleção Brasileira Zagallo ao explicar o verdadeiro banho tático que seu time levou da “laranja mecânica” Holanda na Copa de 1974. Depois disso, qualquer um que alegue espanto ao se deparar com um acontecimento facilmente previsível pode usar a expressão do velho lobo do futebol. Isso vale para o comportamento das bolsas de valores globais nesta semana. Após um período de exuberância, nada mais natural que uma correção.

O momento da economia norte-americana incentiva a formação de pequenas bolhas, conforme alertou o ex-presidente do Fed Alan Greenspan em entrevista nesta semana. A atividade econômica crescente e a atmosfera de quase pleno emprego nos EUA incentivam o consumo e criam bases fortes para pressões inflacionárias. Daí para que a autoridade monetária trabalhe com expectativas de subir as taxas de juros no futuro é um pulo.

As boas notícias de recuperação econômica global em 2017 e as previsões de continuidade do processo em 2018 mantiveram o excesso de liquidez como regra nas bolsas e o Dow Jones teve um mês de janeiro dos sonhos, com quebras consecutivas de recordes de pontuação.

O que espantou não foi nem tanto a retração subsequente, mas a velocidade e a intensidade do movimento. E a explicação desta vez foi a extrema automatização dos negócios. Com mais de 70% das transações feitas hoje por robôs, por meio de algoritmos, o disparo de ordens de venda após os papéis atingirem um determinado patamar acabou por repetir o mesmo efeito do pânico de investidores verificado no passado.

A quebra relâmpago da segunda-feira era, portanto, esperada e até necessária para evitar a repetição da “exuberância irracional” dos mercados (usando uma expressão do próprio Greenspan) que cria as grandes bolhas que se rompem e lançam a economia no caos. Mercado financeiro é um ambiente de alto risco e com foco no longo prazo. É preciso conhecimento, sangue frio e uma dose de coragem.