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Que a maioria dos brasileiros adora um jogo de futebol não é um grande segredo: pesquisas recentes apontam que apenas 20% da população não tem nenhum time de preferência. Mas os últimos tempos têm incentivado uma tendência perigosa, que é a transferência do comportamento do torcedor fanático para a política. Não à toa, a disputa entre simpatizantes de Lula e do PT contra seus opositores tem sido classificada como um eterno fla-flu.

Um exemplo claro foi o depoimento que o ex-presidente Lula deu ao juiz Sérgio Moro anteontem em Curitiba. Na preparação para o interrogatório, optou-se por dividir as "torcidas" em áreas distantes da capital paranaense para evitar confrontos. Enquanto não eram divulgadas informações sobre o duelo no fórum da cidade, as redes sociais fervilhavam com provocações de ambos os lados. Só faltou mesmo a transmissão ao vivo, de preferência narrada por Galvão Bueno.

Quando as imagens vieram a público foi a vez dos comentaristas de sofá entrarem em ação, tentando adivinhar quem ganhou uma partida que nem foi uma finalíssima. Se nos anos 70 todo brasileiro era um técnico de futebol e uma década depois todos eram especialistas em economia, hoje viramos uma pátria de juristas.

Por ironia, é justamente no Judiciário que está sendo jogada uma versão institucional de uma pelada, com direito a ameaças, impropérios e um festival de caneladas. A sugestão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de que o ministro do STF Gilmar Mendes deveria ser considerado impedido de atuar no processo contra o empresário Eike Batista foi o mais novo estopim aceso. Já sobraram acusações recíprocas contra esposa, filha e até ex-mulher.

No Congresso Nacional, onde a principal partida é a tramitação das reformas, o governo tem agido como um técnico desconfiado de que alguns jogadores estão fazendo o chamado "corpo mole". Alguns deputados e senadores são obrigados a treinar em separado e outros são ameaçados com exclusão. Tudo em nome da coesão do grupo.