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O mercado financeiro mundial voltou agitar-se nos últimos dias, na sequência de novas revelações sobre as fragilidades da economia grega e seu contágio nas demais praças da Comunidade Europeia.

Provavelmente os "mercados" não estarão livres dessas ondas de nervosismo por um bom tempo, e elas vão chegar às praias de todos os países, num mundo cada vez mais globalizado. É interessante conhecer um pouco as origens desta organização que todos nós aceitamos chamar de mercado. Em primeiro lugar, não é uma instituição que tenha sido inventada pelo homem.

Na realidade é o produto de uma evolução quase biológica, que o homem foi descobrindo ao longo da história da humanidade desde que nossos ancestrais deixaram a África há 200 mil anos. O mecanismo de seleção foi à busca de uma forma de organização da atividade econômica que combinasse a liberdade de iniciativa individual com alguma eficácia produtiva. Essa organização evoluiu ao longo dos séculos, ganhando eficiência em períodos variados e só veio a florescer dramaticamente a partir dos meados do século 18, quando se verificou a incorporação do progresso científico e tecnológico e a apropriação posterior de uma nova e poderosa fonte de energia, o petróleo. Para entender o alcance dessa apropriação, basta verificar que até 1750 a população mundial era de "apenas" um bilhão de pessoas, com uma renda per capita que praticamente não se alterava.

Nos 250 anos seguintes, graças ao progresso tecnológico que produziu as revoluções agrícola, comercial e industrial, a população cresceu para seis bilhões de pessoas e a renda per capita aumentou dez vezes. O que aconteceu ao homem e aos "mercados" no período, vitimados (na melhor direção) pelo enorme progresso tecnológico produzido por aquelas revoluções? O homem aumentou a sua eficiência produtiva e ganhou muito mais liberdade ao reduzir o tempo material de sua necessidade de subsistência. Mas aumentou também o desejo de maior segurança no processo de sustentar-se e à sua família.

A instituição "mercado" ampliou também os seus graus de liberdade, e com isso, os riscos que acompanham as flutuações da atividade econômica. Daí a exigência da presença do Estado como regulador das atividades dos agentes, especialmente quando os mercados financeiros passam a controlar o processo produtivo. As duas grandes crises (a do século XX e a atual) foram produto das mesmas falhas das políticas de regulação nos Estados Unidos. A recessão mais profunda registrada na história foi a de 1929-1933.

Apesar da substancial melhora nos sistemas de controle do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), ele não soube acompanhar a evolução das "bolhas": uma fraca regulação permitiu a montagem da crise diante das vistas do banco central dos países desenvolvidos. Essa é uma queda-de-braço que está longe de terminar: o sistema financeiro americano resiste "bravamente" às tentativas do Executivo de aprovar no Congresso uma nova regulação que evite a repetição das fraudes que produziram a última recessão.

Pelo que se vê, o sistema não consegue abandonar a sua irresistível propensão de voltar ao local do crime...

Sistema financeiro não abandona a irresistível propensão a voltar ao local do crime.