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É curioso, nem má notícia séria chama mais a atenção. Na quarta-feira de Cinzas, o mundo foi avisado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, o clube das 37 sociedades mais ricas), que a expansão global “continua perdendo força”. Ou seja, o mundo que cresceu 3,6% em 2018, neste ano ficará só com 3,3%. Isto, se tudo não piorar. A má notícia não avançou das páginas de economia. Tudo certo era pós Carnaval, neste ano mais emocionante do que nunca, mas... O primeiro PIB, o dos EUA deve recuar de 2,9% para 2,6% neste ano. O segundo vai na mesma toada, a China diminui de 6,6% para 6,2%. O pior caso é o da União Europeia: despenca de expansão de 1,8% no ano passado para apenas 1% agora. Isso sem maiores “acidentes”, como Brexit explosiva, ou aumento do voto extremista nas eleições europeias.

Nesse caso, o que acontecerá com as exportações brasileiras? Para pensar nisso, melhor notar que na mesma quarta-feira o Departamento do Comércio avisou que o déficit no comércio de bens dos EUA cresceu 10% em 2018, para US$ 891,3 bilhões, o maior já registrado. Isso, quando Donald Trump prometeu o oposto. E o déficit orçamentário subiu para US$ 391,2 bilhões nos três primeiros meses do ano fiscal de 2019. Esse déficit aumentou 42% entre outubro e dezembro ante ao mesmo período de 2017, não só pelo corte de impostos de Trump, mas porque a economia passou a girar mais devagar.

Nos EUA, a resposta veio muito rápida. Bem antes do relatório da OCDE, no começo de fevereiro, o Federal Reserve, o BC deles, interrompeu o aumento dos juros citando o ”enfraquecimento do ímpeto” da economia e os riscos “crescentes” no panorama mundial. A nova economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Gita Gopinath (professora de Harvard, nascida em Calcutá), foi objetiva: “endossamos o ponto de vista do Fed de abordagem baseada em dados”. Ponto!

A resposta do BC europeu foi também ágil. No dia seguinte do relatório da OCDE, o BCE mudou abruptamente o rumo da política monetária e decidiu retomar o crédito barato aos bancos para estimular a atividade. Na prática voltou a segurar as taxas de juros de refinanciamento de empréstimos preservando os valores de -0,40% até o máximo de +0,25% ao ano, conforme a operação. Analistas repetiram que os riscos para a economia estão todos “fora de controle do BCE’, mas é exatamente isso que torna o “timing da decisão mais surpreendente”. Por que os dois BCs, americano e europeu, agiram desse modo? Por que da “agilidade”? Há um forte debate lá fora, que não chega aqui, sobre o que fazer com a “incerteza global”, que mistura inflação “que não aparece”, com guerra comercial, com produtividade concentrada só em alta tecnologia. Este debate macroeconômico, deu outro feitio à ideia de “armadilha da liquidez”. No ar, está a busca de novo paradigma que extrapola a gaiola conceitual, tanto a do populismo estatista como a do dogmatismo fiscalista. A ação rápida do Fed e do BCE está nesse quadro. Nada desse debate macroeconômico chega aqui. O que se deve fazer com uma economia parada? Doze milhões de desempregados ou 1,1% de crescimento, reincidente, faz dois anos. Grave mesmo é perceber que nem a má notícia, nem o “remédio” usado lá fora chamaram atenção aqui. Fugir da realidade é doença. Não pode ser costume. Nem modo de vida. E por motivo simples: vai custar muito caro.

ltrevisan@espm.br