Publicado em

Um passeio pela história da moda no Brasil revela um diálogo entre a plena ascensão da indústria de algodão e a alta-costura brasileira. Se, hoje, a indústria têxtil apresenta um cenário otimista no país e papel significativo — responde por 2,4% da produção mundial de têxteis e por 2,6% da produção mundial de vestuário —, no passado, o setor teve ligação direta com o aproveitamento de uma cadeia proveniente do envase de farinha de trigo.


A história começa em 1905, com a construção da S.A. Moinho Santista Indústrias Gerais, em Santos (SP), o primeiro investimento da Bunge no Brasil, que foi destinado à compra e moagem de trigo, além da fabricação de massas e congêneres.


Com o Moinho produzindo em sua plena capacidade, surgiu a necessidade de se construir uma fábrica de tecidos, com preferência para o algodão, especialmente para o suprimento das embalagens de farinha de trigo do Moinho Santista. A fábrica, cujo processo de construção durou dois anos, começou a funcionar em agosto de 1925, e, além da sacaria, fornecia fios para terceiros. Mais tarde, a nova empresa ficaria conhecida pelo nome de Santista Têxtil.


Já no início dos anos 50, enquanto o Brasil começava a experimentar um processo mais intenso de modernização nos grandes centros, a fábrica de Osasco (SP) da Santista Têxtil acrescenta novos itens à marca: brins, cretones, lençóis e fronhas alvejados, coloridos e estampados, em puro algodão ou feitos de tecido misto. Dessa forma, a linha de lençóis Santista – composta pelas marcas Ouro, Prata e Osasco – fez a Santista Têxtil assumir a liderança do mercado de itens de cama, mesa e banho industrializados.


Logo após o sucesso com os lençóis Santista, a companhia se lançou em mais uma ousadia: a produção de tecidos para roupas profissionais, em uma época em que boa parte da indústria nacional não oferecia uniformes aos seus funcionários. O lançamento oficial da roupa profissional Santista aconteceria na 1ª Convenção Nacional da Indústria Confeccionista, em 1958, em São Paulo.


Das sacarias para a farinha de trigo, o mercado de cama, mesa e banho até a indústria de uniforme, o surto de modernização e a expansão da sociedade de consumo no país promoveu uma maior inserção de tecidos nobres na indústria e a ascensão de uma primeira geração de estilistas — o embrião da atual indústria da moda. Era a vez da alta-costura brasileira, em eminencia também graças à tecnologia da época.


Aproveitando-se deste contexto, grandes marcas brasileiras como Zoomp, Fórum, Ellus, Gloria Coelho e Maria Bonita se destacaram nesse nicho. Com os planos de estabilização econômica no país, entre a década de 80 e início dos anos 90, notou-se um aumento do mercado interno e uma sofisticação dos hábitos de consumo.


Há quem diga, no entanto, que a famosa haute-couture francesa não existe no Brasil. O termo, que diz respeito à criação de modelos exclusivos feitos artesanalmente, é uma patente protegida por lei na França. No Brasil, dois brasileiros fizeram parte da lista da Câmara Sindical da Alta-Costura Francesa, que, desde 1945, estabelece regras rígidas e específicas para o enquadramento do termo: o estilista Ocimar Versolato, que, após passar pela Maison francesa Lanvin por dois anos, apresentou uma coleção própria, e Gustavo Lins, que fundou seu Atelier Gustavolins (falido em 2015), e foi membro convidado daquela Câmara, chegando à categoria de permanente em 2011


Conceito à parte, o universo da alta-costura levou o nome do Brasil e de grandes estilistas para uma concorrência internacional. De uma indústria de sacarias de algodão, criada inicialmente apenas para o suprimento das embalagens de farinha de trigo do Moinho Santista, a atuação da Bunge se tornou um marco na indústria têxtil brasileira.


Estas e mais informações históricas estão disponíveis no Centro de Memória Bunge, na cidade de São Paulo. O local possui um acervo com mais de 1,5 milhão de itens que contam mais de um século de história.


Centro de Memória Bunge – Rua Diogo Moreira, 184 - 5º andar – Pinheiros, São Paulo/SP Tel.: (11) 3914-0846