Publicado em

Com tantas tendências competindo por espaço no universo digital, é compreensível que você tenha passado os últimos anos sem ouvir falar do movimento antinatalista, o qual reúne um número crescente de pessoas, dedicadas a propagar a ideia de que o ser humano deve parar procriar, na medida em que isso expõe os filhos às duras condições da vida, à revelia de seus interesses.

Ninguém falava muito deles, desde que Schopenhauer publicou os Estudos sobre o Pessimismo, em 1851, mas aí foi que Raphel Samuel teve a brilhante ideia de processar sua mãe por ter nascido. Com uma barba inspirada no Ditador de Sacha Baron Cohen e um tino para falar às massas pelo Youtube, este indiano de 27 anos ganhou vasto espaço na mídia mundial, que nele encontrou uma forma exótica de entretenimento.

Consumida a piada, vale considerar que a coisa toda é ainda mais interessante. Os antinatalistas acreditam no poder decisório das pessoas e evidentemente refutam a ideia de que impulsos reprodutivos estejam acima do nosso controle. Por esta razão, trazem de volta à cena uma discussão nunca selada sobre a essência da condição humana.

Como sempre é o caso, nem todos concordam com eles. Por exemplo, a função mais relevante do fenótipo é assegurar a propagação do genótipo, o qual busca exercer sua hegemonia; logo, segue o raciocínio, uma subversão dos impulsos reprodutivos só pode se traduzir em relativização do mecanismo mais prevalente de toda a natureza. Há também uma forma alternativa de discordância, como lê-se no Genesis (1:28), “sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e sujeitai toda a terra”. Tal como num daqueles filmes em que russos e americanos em certo ponto se uniam contra o mal comum, seja ele o nazismo ou Golden Eye, há de se argumentar que a história aqui é de que darwinistas e criacionistas afinal se encontram, em direta oposição aos preceitos antinatalistas. Ou será que não?

Considere o ser mais selvagem e natural com o qual você se relaciona, seu cachorro; pois bem, a ideia de que ele tem um instinto reprodutivo não é totalmente precisa. O animal tem instintos sexuais, o que quase sempre leva à reprodução, mas é claro que não faz sentido supor que cachorros associem sexo a crias, suas ou dos outros, e menos ainda que tenham qualquer tipo de vazio interior até que gerem um descendente fértil. O mesmo se aplica ao ancestral comum que compartilhamos com o chimpanzé e outros macacos.

A evolução é genial porque procede por simplicidades: o bicho quer transar e ponto final; e se o pacote incluísse algo mais, talvez fosse um cigarro, nada mais complicado do que isso.

Da perspectiva da relação entre sexo e reprodução, uma inclinação inata para se orientar a esta, em contraste com as outras espécies, que se orientam àquele, só poderia ter se fixado por meio de pressões seletivas muito específicas. Isso simplesmente nunca ocorreu, uma vez que, ao longo da história da nossa espécie, o impulso sexual costumou bastar para que os genes realizassem seus desígnios, utilizando os fenótipos como meio. Não foi dessa vez que darwinistas e criacionistas se entenderam.

Porém, nem tudo está perdido. Desde relativamente cedo na história da cultura, o ser humano obteve consciência reprodutiva, como revelado por estudos antropológicos com grupos humanos isolados, tal como os trombiondeses, do pacífico sul (aliás, hoje é aceito que o grande Malinowski interpretou errado este ponto). Isso é de se entender, afinal, independentemente da habilidade de estabelecer relações precisas entre o sexo e nascimentos de pessoas, temos facilidade para fazer paralelos entre aquilo que se aplica aos animais que habitam a aldeia e o que se aplica a nós mesmos.

Pois bem, mesmo sem ter por trás genes especificamente relacionados a sua manifestação, o desejo de ter filhos surge entre grande parte das mulheres e homens, tomando forma a partir da consciência reprodutiva e de sua marcha, climatério adentro. Dessa consciência frequentemente surge uma forma bem definida de ansiedade, especialmente entre as mulheres sem filhos em idade reprodutiva avançada, que de tão recorrente ganhou um apelido nos países de língua inglesa: baby fever ou “febre do bebê”.

Tal como a febre do bebê não se reduz a uma manifestação geneticamente acionada em função do fato de que a janela de oportunidades vai se fechar e a mulher deve correr, ela tão pouco se esgota na antítese ideológica desse argumento, de que o poder masculino impõe-se na definição de papéis sociais, forçando as mulheres a espaços simbólicos e práticos em que ter filhos torna-se essencial para evitar pesadas formas de alienação.

Não é que esta ideia erre o alvo completamente, ela é tão verdadeira quanto machista e opressiva for a sociedade sobre a qual estivermos falando. O problema é que muitas islandesas da atualidade têm febre do bebê; muitas norueguesas, nova iorquinas; aliás, islandeses, noruegueses e nova iorquinos, gente que não cabe nessa Jordânia alegórica.

Esse fato dos dias atuais também relativiza a variante light da hipótese acima, que diz que o código fonte da febre do bebê é educacional, com meninas sendo treinadas para serem mães e meninos para serem super-heróis; afinal, se assim fosse, o desejo de ter filhos seria quase que estritamente feminino, o que não é verdade - sem contar o fato de que a educação nos países mais liberais relativiza esse paradigma há um tempo e as maternidades continuam operando por lá, ainda que em ritmo menor do que nos países de IDH menor.

O que mais torna cada uma dessas hipóteses limitadas é o fato de não deixarem margem para a formação contextual do interesse. O relógio biológico apita e algumas cascatas moleculares ativam supostos centros procriativos no cérebro, e eis que surge a febre do bebê, aos trinta e sete. A sociedade nova-iorquina é toda truncada e repressiva, informando a mulher a todo o tempo que ela não será nada sem um filho e eis que surge a febre, na puberdade. Os papéis educacionais islandeses condicionam a menina à prática simulada de uma mini-mãe e eis novamente a febre, dessa vez, na infância. Enquanto isso, o homem só observa, sem entender como alguém pode se embrenhar nessa loucura. Nah.

Uma alternativa é considerar que o desejo de ter filhos lá na Noruega, bem como aqui e no resto do mundo industrializado, em grande medida, é estimulado pelos próprios bebês, que habilmente lançam suas flechas, revelando o porquê de tantas vezes representarem o papel de cupido, aquele que encontrou amor verdadeiro, enquanto frustração e baixaria pegavam por todo o Olimpo.

Comecemos com a evolução. Tal como em outras espécies, para as quais o vínculo entre sexo e nascimento é misterioso, hormônios que mais parecem feitiçaria inundam o cérebro materno e convertem cada sinapse num fanático por aquela criatura que além ter traços desenvolvidos para ativar áreas do cérebro que produzem apego, lembra um pouco esta que o admira. Em posição de destaque neste arsenal biológico, há um composto que corre pelo ar e contamina qualquer um que passar por perto. Este é conhecido como oxitocina e cientificamente considerado um neuro-hormônio pró-social. Seu papel é gigante.

Amigos e familiares vêm visitar a família e, quando veem, estão beijando o bebê, cutucando o bebê, falando com ele como se alguma forma de compreensão linguística surgisse, do falar errado.

Nesse clima todo, os pais, cinco noites em claro, regurgitados até a meia, sorriem e tudo o que todo mundo pensa é o quanto estão realizados e o quanto é bom ter um bebê. Eis então o momento em que a segunda explicação, a que fala de repressão do establishment, entra na jogada. As famílias que já têm filhos se regozijam e seguem adiante; homens e mulheres, solteiros ou recém-casados, animam-se sem estresse; agora, as mulheres mais velhas que ainda não têm filhos, especialmente as que não estão com alguém, veem ali materializado o ideal de felicidade mais incontroverso que existe; o único que não precisa de definições ou justificativas e que garante que todos ao mesmo tempo parem de encher o saco.

Finalmente, o golpe fatal ocorre quando a visita se distrai e seus braços levam inconscientemente o bebê ao colo. Ali, a parte relevante da terceira explicação toma forma, na facilidade de ninar, no interesse redivivo por coisas em miniatura, na lembrança da Carol, vizinha, que era gente boa e de fato tinha uma coleção de bonecas de se invejar.

Por cada uma dessas vias e sobretudo pelas sinergias que produzem, a febre do bebê continua entrando na vida das pessoas, ainda que a fila tenha andado e o contexto seja distinto daquele em que as explicações que caíram na boca do povo, intelectual ou não, foram forjadas.

Ela o faz com graus variados de intensidade, o que nos leva a uma resposta um pouco evasiva à pergunta acerca do controle intencional assumido pelos antinatalistas: por mais que o acesso ao planejamento familiar seja considerado um direito básico nos países culturalmente mais sofisticados, uma parte significativa das pessoas é enfeitiçada por essa mistura de traços, hormônios, mecanismos culturais e dispositivos psicológicos, a partir do que sentem que suas vidas não podem ser plenas sem o pequeno poderoso.

Qual a taxa de pessoas para as quais isso se aplica? Quantos por cento dos pais de fato decidem ter filhos, a partir do desejo claro, líquido e certo? Difícil dizer, mas o mero fato de existir essa conjuntura mostra que o antinatalismo é ele próprio um movimento desarrazoado, reclamando algo que poderia deixar as pessoas extremamente infelizes para supostamente evitar que outras um dia assim se sintam.

Parece absurdo? Isso é só uma questão de perspectiva. Na verdade, o antinatalismo é o movimento filosófico mais popular de todos os tempos; se você se concentrar, verá inclusive que existe um antinatalista dentro de ti; ele tem sete anos e um dia virou para a sua mãe e disse “ninguém mandou você me ter, agora faça o que eu estou querendo!”.