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Enquanto a guerra contra as fake news segue sem perspectivas de encerramento, um novo movimento de direcionamento intelectual pode estar prestes a entrar em curso. Este diferencia-se por não se propor a enganar as pessoas, mas antes a subsidiar o deliberado desejo de interagir dialogicamente com agentes ideologicamente alinhados, por meio de novas tecnologias.

Aqui descrevemos seus aspectos essenciais, em termos conceituais e aplicados.

Assistentes virtuais como o Siri da Apple, Duplex do Google ou Alexa da Amazon atualmente servem para demos-gracinha (“Alexa, qual o sentido da vida?”, etc.) e consultas simples. A transição ao papel de agentes livremente conversacionais representa um dos grandes objetivos de toda a ciência cognitiva, indo muito além de qualquer empresa e mesmo de seu campo científico de origem (NLP).

Apesar de ter a aceleração no acúmulo de dados processados e bilhões em investimento a seu favor, o êxito parece distante.

Porém, muito antes de atingirmos a tão sonhada quanto temida liberdade conversacional, em apenas 3-4 anos, será possível aos assistentes virtuais instanciar bate-papos capazes de gerar empatia e a apresentação de um sem fim de ideias alinhadas a visões de mundo pré-selecionadas por seus clientes (o Google vem anunciando um assistente meramente pragmático, capaz de gerar empatia e que dá uma ideia do potencial que se anuncia: https://bit.ly/2rznYXJ).

Será o lançamento dos módulos propositadamente doutrinários para assistentes virtuais.

Desde o seu surgimento, nos anos 1980, a computação pessoal assumiu o papel de representante maior do iluminismo contemporâneo e dos mais estritos princípios de comando e controle individuais.

O papel hegemônico no gerenciamento da vida cotidiana, a linha direta com a memória do mundo, os portais de contato entre as bordas do capitalismo e as organelas fervilhantes de seu centro, todas essas janelas de oportunidade - disponíveis, mas não obrigatórias - convergiram na elevação da sensação de autonomia e autoestima, nas porções do planeta em que não prevalece a tirania. Com exceção da tornozeleira eletrônica, este acesso trouxe crescente autonomia decisória - mesmo que seja a de receber um pito por não ter dado passos suficientes ou atacado um pudim.

Tal relaciona-se tanto com os princípios que regeram a terceira revolução industrial e, em especial, o desenvolvimento da internet, quanto com a limitada capacidade de direcionamento discursivo que se mostrou possível até hoje. É exatamente isso que está prestes a mudar.

A hipótese que apresentamos é a de a prerrogativa tecnológico-iluminista entrará em processo concorrencial, não por força de alternativas generalizadamente repressivas, mas pelo deliberado desejo de muitos consumidores de estarem em consonância ideológica com seus devices e de assim estruturarem a formação de seus filhos.

Esta predição tem suporte técnico: os discursos baseados em princípios têm menos variância interna do que os discursos que não os possuem, assim representando um marco mais próximo do horizonte dos bilhões investidos.

Não se deve esperar que Amazon, Apple e Google lancem pacotes de voz baseados em propósitos, criando inúmeras controvérsias, mas que o livre mercado criado em torno desses assistentes virtuais conduza-nos a tal estado de coisas. Isto porque todos esses serviços baseiam suas estratégias de expansão na possibilidade de que qualquer desenvolvedor crie apps ou funcionalidades para seus assistentes. Atualmente, legiões de empreendedores estão criando funcionalidades e apps às baciadas, em busca do sucesso.

A predição também tem suporte conceitual: pouca gente sente que pode acabar vítima daquilo que instrumentalmente controla, ao mesmo tempo em que muita gente sente que precisa criar um clima que auxilie aqueles que lhes são mais caros a encontrar um norte.

Finalmente, ela tem suporte estético: de um lado, dezenas de pesquisas revelam que atribuímos características psicológicas a todo tipo de dispositivo robótico; de outro, as pessoas tendem a se sentir bem quando veem os princípios em que acreditam sendo compartilhados pelos outros.

Do ponto de vista da implementação dos princípios religiosos, nota-se que um dos fatores a unir as principais religiões do planeta é o fato de terem dogmas nocionais e receituários comportamentais. Em algumas delas, diz-se que fomos dos lactobacilos ao elefante numa janela temporal semelhante àquela em que, nos dias atuais, vamos daqueles ao kefir. Em outra, fala-se em virgens, numa terceira, prevê-se um conjunto de semideuses. A despeito de sua variedade e riqueza de detalhes, a totalidade das narrativas religiosas da história cabe na partição de um único servidor e pode ser contextualmente resgatada pelos diferentes assistentes virtuais, contribuindo para a sua fixação nos diferentes grupos de consumidores de módulos religiosos.

Em paralelo, as principais religiões da atualidade preconizam a inibição de comportamentos socialmente deletérios, um conjunto de proibições específicas e complementares, o estímulo a comportamentos fortalecedores de grupo e uma pequena lista de ritos associados a datas. É aí que vai se dar a competição entre os fornecedores.

Sem entrar no mérito de qual religião descobriremos correta no dia em que morrermos, é certo que com mais alguns anos de evolução do campo do processamento natural de linguagem (NLP), os mais variados assistentes virtuais poderão implementar diálogos sobre as narrativas e direcionamentos comportamentais baseados nos preceitos aplicados, gerando um senso de continuidade religiosa, 24/7, para bilhões de pessoas, em todo o planeta.

O fato de que existe uma grande zona de intersecção entre as diferentes religiões monoteístas permitirá que o menu de opções religiosas cresça rapidamente, até abranger todas elas. Nunca, as diferenças serão tão parecidas.

Pela generalização deste princípio, esperamos também uma inundação de pacotes para assistentes filosóficos, políticos, psicológicos, de autoajuda, entre tantos outros, disponibilizados em nuvem e aprimorados pelo uso.

A paisagem da disseminação de ponto de vistas será alterada de maneira tão ou mais relevante do que foi pela internet dos websites e redes sociais, até porque um de seus principais nichos será o dos celulares e wearables dos jovens com pais sequiosos por lhes transmitir algum direcionamento doutrinário.

Por fim, o próprio planejamento estratégico das religiões irá mudar, assimilando a máxima de que nenhum pregador, canal de vídeo ou conjunto de construções físicas pode ombrear o poder de disseminação de princípios doutrinários das interfaces de uso contínuo, que assim irão se converter na bola da vez dessa competição cada vez mais acirrada por pontos de vista hegemônicos.