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Tudo começou com o couro ecológico e seu toque colante. Depois vieram os casacos de pele sintética, levantando a moral do acrílico e de seus defensores, nos países frios. Enquanto ainda estávamos a nos acostumando com substitutos animais e sua existência correta, centenas de milhares de restaurantes veganos brotaram nas cidades médias e grandes do ocidente, revelando a velocidade da transformação em curso.

As razões pelas quais as pessoas optam por couro ecológico ou comida vegetariana são mais variadas do que supõem seus detratores. Uma entre estas razões é a mitigação do sofrimento animal, que se sustenta sobre a premissa de que o aparato sensorial para experiências de medo e dor dos outros mamíferos é praticamente idêntico ao nosso.

Outra, é o custo dos produtos de origem animal. No caso específico da comida, há também questões de saúde e energéticas, enquanto no caso dos tecidos, a possibilidade de tingimentos e a maior durabilidade. Entre todas estas razões, uma que não pode ser subestimada é o prazer sensorial. Há multidões que não se sentem bem quando em contato com couro ou comendo carne.

A superação do sofrimento e morte de animais é uma daquelas questões relevantes para a evolução da nossa civilização e não seria exagero dizer que, se pudesse escolher, a vasta maioria dos carnívoros gostaria de cultivar seus hábitos alimentares sem dividir a responsabilidade pelo abate de qualquer espécime. É aí que entra a plantação de bois.

Carne cultivada ou sintética é uma invenção de origem animal ainda em desenvolvimento que, com algumas variações, tenderá a ser produzida a partir da implantação de células animais em um reator biológico, onde irão se diferenciar em músculos e outros tecidos, gerando variantes da carne, couro e, com algumas diferenças sutis, dos frutos do mar.

O reator biológico é uma espécie de recipiente altamente controlável, que pode simular o ambiente de crescimento das células normais ou “in-vivo” (veja um exemplo ilustrativo de reator biológico, aqui: https://bit.ly/2KIbwM6, para um exemplo diretamente ligado à produção de carne sintética, veja aqui: https://bit.ly/2PqMbJC). Nele, são depositadas células tronco, envolvidas em um sérum que possui propriedades nutricionais e fatores de crescimento. Durante o processo de desenvolvimento, estas células tronco são emaranhadas a fibras de colágeno que garantem rigidez estrutural, além de receberem a adição de alguns aminoácidos.

O resultado final tende a lembrar carne moída, mas diferentes empresas estão trabalhando em processos de transformação desse subproduto em filés e peças inteiras de carne, usando impressoras 3D adaptadas.

Em nenhum momento, há contato manual, adição de hormônios ou antibióticos, razão pela qual os departamentos de marketing das empresas que estão investindo no segmento já se anteciparam em chamar-lhe de “carne limpa”.

A possibilidade de que a carne sintética seja parte do pacote de inovações tecnológicas necessárias para erradicar a fome no mundo é bastante real. Outra hipótese relevante é de que seja importante para reduzir a progressão do aquecimento global, uma vez que o metano liberado pela pecuária é mais determinante para o aquecimento global do que o dióxido de carbono liberado pelos atuais carros e caminhões (vale conhecer este relatório da ONU: http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM) .

Do mais, tal como vem acontecendo em relação à produção de vinho, cuja qualidade global subiu muito na última década, esforços voltados ao aprimoramento da textura, aroma, resposta ao cozimento e afins poderão tornar o produto imbatível aos olhos da maioria.

Uma quantidade imensa de recursos financeiros jorrará para este segmento, que terá potencial para se tornar maior do que a pecuária tradicional, em algumas décadas. Neste meio tempo, uma série de questões irá se colocar para as autoridades regulatórias dos diferentes países, como, aliás, já vem acontecendo nos Estados Unidos, onde o FDA (Food and Drug Administration) e o Departamento da Agricultura (USDA) vêm disputando a autoridade sobre o tema.

Mas é sobretudo na vida dos consumidores e produtores que esta mudança de paradigma ganhará seus contornos mais relevantes.

A abolição dos princípios que dão suporte ao ativismo vegetariano deverá aumentar o número de carnívoros em potencial, ao mesmo tempo em que fará nascer um novo movimento de rechaço às tecnologias alimentares, similar àquele que existe em relação aos transgênicos.

O sentido do que é esquisito também deverá se alterar. Comer carne in natura um dia será considerado um hábito de nicho, parecido com a atual prática de comer carne de caça, mais cara, em certo sentido controversa e não necessariamente mais saborosa.

A produção de carne sintética deverá se concentrar muito e estas empresas serão identificadas como expoentes da substituição tecnológica do trabalho humano, assim como poderão ocupar um papel de relevo numa possível alteração da relação entre campo e cidade, cuja dinâmica exporei em um futuro artigo.

De maneira resumida, acredito que tanto as indústrias de carne sintética, quanto as futuras unidades produtivas automatizadas de agricultura intensiva encontrarão incentivos maiores para se fixarem nos cinturões industriais que circulam os centros urbanos, do que nas áreas de baixa densidade tecnológica, como as atuais zonas rurais. A relação campo-cidade, como a conhecemos hoje, deixará de existir.

Por esta mesma lógica, os centros globais mais industrializados passarão a importar menos alimentos, o que levará a uma alteração na cartografia econômica que se estabelece através do mercado global de commodities, aumentando a distância entre os países mais capacitados tecnologicamente e os seus antigos fornecedores de alimento.

Plantando bois, muita coisa vai se transformar neste planeta.