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Há eleições facilmente explicáveis e eleições que trazem desafios conceituais. O estirão na captação de novos eleitores exibido pela candidatura de Bolsonaro é suficiente para enunciar o desafio que tantos vêm discutindo.

Em parceria com o coautor, Dr. Eduardo Oda, irei apresentar um novo modelo conceitual para explicar este fenômeno. A ideia é ir além daquilo que vem sendo publicado, de modo a discriminar aspectos pontuais de novas tendências da comunicação que possam eventualmente estar em jogo.

Para facilitar a leitura, optamos por quebrar o artigo em duas partes, a serem publicadas sequencialmente, uma por semana.

A primeira parte procura mapear os argumentos mais relevantes que já foram apresentados para caracterizar o crescimento do então candidato e deitar as bases do novo modelo conceitual. A parte seguinte sistematiza o modelo e discute consequências e externalidades.

 

Ameaça e contra-ataque

Do ponto de vista político-eleitoral, Bolsonaro estabelece paralelos com Trump.

A eleição daquele foi marcado por um voto com destaque masculino, branco, de eleitores economicamente mais afluentes.

Já a eleição de Trump (2016) foi originalmente reconhecida pela representatividade da classe trabalhadora branca, cuja renda estava caindo em função do outsourcing e da automação. Passados dois anos, uma série de estudos vêm questionando este paradigma estritamente pragmático, o que aproxima ainda mais os perfis eleitorais.

Diana Mutz emplacou um paper (http://www.pnas.org/content/115/19/E4330) no importante periódico PNAS, onde argumenta que a ascensão de Trump não pode ser explicada de maneira estritamente econômica, relacionando-se em grande medida à sensação de que a representatividade hierárquica dos indivíduos da classe média branca americana estaria sob ameaça, demandando resposta enérgica.

Aqui, a crise foi - e ainda permanece - muito grave, mas a ela acrescenta-se também uma forte dose de inquietude psicológica, tornando a relação entre a percepção de ameaça e a demanda por respostas enérgicas uma das semelhanças mais relevantes entre ambos os processos eleitorais.

A experiência afetiva da ameaça é um dos grandes invariantes emocionais dos mamíferos. Seu papel evolucionário é preparar o organismo para respostas inflamadas, de fuga ou contra-ataque.

Uma observação de base etológica retrata muito bem o papel adaptativo deste incômodo sentimento: um animal entocado tende a dar a vida para não ser expulso de sua toca, ao passo que um outro, interessado em desentocar o primeiro, tende a desistir da disputa antes de chegar à eminência da morte. Disto segue a observação de que o animal ameaçado exibe uma vantagem nas disputas conflitivas. Eis a lição do Vietnã.

Outro aspecto agregador envolve a proeminência da personalidade sobre o partido.

A campanha de Trump foi marcada por inúmeros atritos internos, dado o seu desacoplamento da estrutura canônica do partido republicano. Bolsonaro levou isto ao paroxismo e simplesmente utilizou um partido de conveniência. Em comum, ambos não fizeram campanha como representantes dos grupos políticos aos quais estão oficialmente filiados, preferindo se posicionar individualmente.

Enquanto de um lado enfileiramos paralelismos, uma diferença crucial permanece: o outro lado. Hillary Clinton representa o pensamento liberal dos grandes centros americanos, contando com uma plataforma político-econômica de baixa afinidade com a esquerda brasileira. Se o Amoêdo tivesse ido ao segundo turno, poderíamos ter um cenário verdadeiramente convergente; do jeito que foi, não.

 

Fatores locais, fatores globais

Especificidades locais marcaram esta eleição. Aqui, opuseram-se esquerda e direita, num contexto de ampla suspeição sobre a idoneidade dos princípios sob os discursos - um lado dizendo que por trás dos apelos supostamente distributivos, não haveria nada além da intenção de se beneficiar pessoalmente do poder pela via da corrupção; e outro lado dizendo que da ausência de propostas com potencial de debate na esfera pública fez-se um império de fake news.

A grande maioria do que está publicado sobre a arrancada de Bolsonaro pauta-se por essas especificidades locais, com ênfase no papel do antipetismo. A disputa teria sido principalmente sobre o PT, que através do voto opositivo recebeu um feedback duplo, sobre seu legado e sobre a estratégia de afirmar até o último momento a crença no Lula candidato.

Uma segunda linha argumentativa, de acento global, coloca em primeiro plano a força do alinhamento ideológico da direita conservadora de Trump, Salvini (vice primeiro-ministro da Itália) e outros, à luz da oposição entre inclinações tradicionalistas e liberais nos costumes.

Em sua forma mais bem-acabada, o argumento retoma que o liberalismo de costumes une a esquerda moderna e os liberais sob a instrumentalidade do politicamente correto, que é uma cartilha de práticas de aspirações iluministas, dependente da aceitação coletiva incontroversa e que, entre outros aspectos, equipara os direitos e a liberdade de manifestação pública das minorias ao das maiorias. Se casais hetero podem se casar e se beijar na rua, gays e lésbicas também devem poder e assim por diante.

A hegemonia do politicamente correto não teria convertido, mas recalcado, os partidários da preservação destas diferenças, que então passaram a nutrir um mal-estar velado, o qual encontrou guarida nos discursos neoconservadores.

Uma terceira linha, menos discutida do que merecido, causalmente situada entre o local e o global, sugere que a sensação de se estar sob ameaça de violência física e patrimonial atingiu níveis suficientemente elevados a ponto de servir de pilar para a formação de uma agenda própria, com características irredutíveis ao neoconservadorismo americano ou europeu. A quantidade singular de profissionais atuando na repressão à criminalidade que foi eleita reforça esta visão.

 

Uma nova era para os discursos políticos

Estas três linhas de argumento têm significativas doses de profundidade e relevância, não podendo ser desprezadas. Por outro lado, assumem forçosamente a especificidade de um fenômeno que não necessariamente é efêmero ou sequer cíclico.

A tese primária deste artigo é de que, sob esta especificidade, está em curso um processo de formação de uma nova era para a eficácia discursiva de caráter político, que transcende o antipetismo, o impulso visceral para reagir ao politicamente correto e à criminalidade violenta.

Conforme a nossa modelagem, esta mecânica demanda uma representação em dois níveis: o das manifestações proximais e o das manifestações distais, que dão suporte àquelas ao mesmo tempo em que as tensionam - mais ou menos como se dá na relação entre fenótipo, genótipo e a miríade de manifestações epigênicas intercedentes.

Trump ganhou a eleição por causa da internet. Bolsonaro ganhou na internet. Assim como o fez Obama, com sua versão do “yes, we can”, em 2008.

Eleição grande é vencida na internet. Até aí, sem novidades.

Do mais, os movimentos sociais que servem de pilar à esquerda invariavelmente organizam-se na internet; a página no Facebook do MTST é particularmente emblemática do grau de profissionalismo atingido, o qual adquire sinergias “omni channel”, com o bem montado website e o boca a boca nos aplicativos de mensagens.

O direcionamento bem cuidado da comunicação das páginas do MTST revela que sua preocupação transcende a interlocução com os membros do movimento. Trata-se de plataforma pensada para também acomodar adequadamente os diálogos com a mídia.

Os mantenedores da página também mostram consciência sobre os interesses de outros grupos da esquerda. Uma prova disso é que há algumas notícias sobre LGBT, direitos das mulheres, índios, entre outros. No todo, porém, a estrutura digital deixa claro que se trata de um grupo definido por sua agenda, forma de comunicação e participação social específica.

O mesmo se aplica para a totalidade dos grupos constituintes da base atuante da esquerda, que não representam de maneira direta partidos, e para os grupos religiosos, clubes de tiro, monarquistas e afins da direita.

O arranjo em que subsistem reforça a sua própria sustentabilidade, ao mesmo tempo em que gera uma vulnerabilidade competitiva no contexto das eleições modernas.

Apesar de conseguirem apontar os votos de seus participantes na direção desejada, eles não conseguem satisfazer a demanda pela rápida captação de novos eleitores, exigida nos segundos turnos das eleições, ao contrário dos esforços pulverizados por indivíduos sem afiliação a grupos de interesse ou partidos.

 

A superioridade do discurso alijado de grupos na nova ordem digital

Há dois domínios causais, envolvendo as relações entre indivíduos e grupos, para a maior eficácia desse novo padrão. O primeiro é o das especificidades da coordenação entre grupos na esfera digital atual e o segundo é o das especificidades do compartilhamento.

CUT, UNE, MST, MTST, LGBT, feministas e demais grupos organizados não conseguem atrair para as suas esferas de persuasão os indecisos situados nas zonas de aproximação de qualquer um dos outros grupos com os quais compartilham entendimentos eleitorais; neste ponto, compartilham o problema essencial dos partidos tradicionais.

A especificidade de suas agendas, de caráter amplamente afirmativo, inibe a coordenação que aumentaria a base de prospects. Não poderia haver maior distância erótica do que a que se estabelece entre o discurso de sensibilização LGBT e o discurso de sensibilização pela propriedade fundiária. O mesmo se aplica aos grupos de interesse da direita; porém, estes justamente deixaram de representar os maiores pivôs da captação de novos eleitores.

O fenômeno que emergiu nesta última campanha presidencial brasileira caracterizou-se pela multiplicação das células de comunicação baseadas em temáticas que se oferecem aos indivíduos sem alusão a qualquer participação em grupos organizados, mas tão somente na habilidade de despertar o desejo de compartilhar algo que denuncia uma situação pessoalmente ameaçadora.

Esta exibe maior potencial para a conversão acelerada de novos eleitores pois cria cumplicidade, sentimento este que reside no plano interindividual e que reduz o limiar à ação.

Ao contrário dos movimentos organizados, que se unem ou se afastam pela afirmação de princípios de forte coesão e explícita conotação política, a campanha de Bolsonaro pautou-se fundamentalmente por discursos que se concatenam de maneira apenas indireta, sob o signo das reações de rechaço, em redes relacionais consideradas apolíticas por seus participantes.

Coordenam-se sob o princípio da mão invisível e não de agendas pactuadas nas bases.

Na semana que vem iremos revelar os resultados específicos produzidos por esta forma de coordenação, culminando na formulação do nosso modelo, em associação às suas consequências e externalidades. Até lá.