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Em nosso primeiro artigo desta série, apresentamos um panorama das interpretações do comportamento eleitoral recente. Neste, detalhamos nosso próprio modelo. 

 

Conforme o parágrafo de encerramento do anterior "Ao contrário dos movimentos organizados, que se unem ou se afastam pela afirmação de princípios de forte coesão e explícita conotação política, a campanha de Bolsonaro pautou-se fundamentalmente por discursos que se concatenam de maneira apenas indireta, sob o signo das reações de rechaço, em redes relacionais consideradas apolíticas por seus participantes. Coordenam-se sob o princípio da mão invisível e não de agendas pactuadas nas bases." Este é o nosso ponto de partida mais imediato. Recomendamos, entretanto, que a leitura deste artigo tenha como base a leitura prévia do anterior.

 

Pílulas de conteúdo afetivizadas e o estabelecimento da cumplicidade

No âmbito das especificidades do compartilhamento, a universalização do acesso aos smartphones, naturalmente acompanhada pela universalização do uso de redes sociais, traduziu-se desde cedo numa acirrada competição pela atenção e cliques associados.

A economia da atenção assim surgida reforçou duas tendências: a da proliferação de pílulas de conteúdo predominantemente não-verbais e afetivamente vitaminadas, concebidas para uma vida curta, porém fulgurosa; e a formação de grupos digitais quase incidentais, em que as pessoas mantém-se até que a motivação para sair supere a somatória da inércia com a curiosidade em acessar suas pílulas e reações associadas.

Aquele grupo da escola que todo mundo silencia, na média, aumenta o espaço de influência do pensamento neoconservador.

O conteúdo precisa chamar atenção instantânea, o que por sua vez depende da geração de reações no plano do eu. Em contraste, o que menos funciona são os discursos que arrolam princípios ou direitos de grupos organizados, que neste contexto tendem a não engajar, sendo então caracterizados como chatos e panfletários.

Isto é assim porque a representação do indivíduo-alvo de uma ação como parte de um grupo manifesta-se mentalmente como um anteparo à visceralidade, que subjaz à cumplicidade necessária para a redução do limiar que separa a mera fruição da mensagem do seu compartilhamento.

Basta comparar a experiência de leitura das frases a seguir para entender isso em toda a sua profundidade:

Uma jovem de dezoito anos, que estava em frente a um prédio abandonado, foi forçada para dentro de um dos apartamentos vazios, estuprada e morta.

Uma jovem de dezoito anos, que fazia parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e estava em frente a um prédio abandonado, foi forçada para dentro de um dos apartamentos vazios, estuprada e morta.

Protagonismos de grupo inibem o contágio. Não é que Bolsonaro teve sucesso apesar de não ter um partido relevante, mas sim que esta nova dinâmica funciona na medida em que não haja partido ou outro tipo de grupo de interesse para atrapalhar. Os embates com Mourão e as solicitações do então candidato em sentido ao silenciamento de sua equipe não foram incidentais.

 

Formulação sintética do novo modelo

Assim chegamos à manifestação proximal deste novo fenômeno, definido pela geração de cumplicidade nas zonas proximais dos relacionamentos individuais, por meio de uma dinâmica de contágios que se espraia sobre aquilo que as pessoas já fazem em seus grupos de relacionamento digitais - amplamente apolíticos e caracterizados por laços fracos - que é o compartilhamento de conteúdos capazes de atrair atenção imediata para algo que tem relevância em si mesmo.

Não há agenda central na captação, mas sim coordenação indireta.

De acordo com o contexto, ganha momento a permissividade e ineficiência no trato da criminalidade violenta que ameaça escalar ainda mais, os excessos das agendas identitárias, junto aos indicativos de que podem se tornar hegemônicas, o aparelhamento estatal orientado à corrupção, que nos lançou na crise e aponta para os riscos de uma venezuelização do país, entre outros.

A aplicação de princípios de sobrevivência mercadológica aos conteúdos, derivados da introjeção do uso de redes sociais, garante que eles se segmentem difusamente em função das recusas localmente priorizadas. O fato de as pessoas estarem rechaçando coisas diferentes nos grupos diversos não deve ser visto como um artefato, mas antes como expressão consistente desta lógica, em que a receptividade instantânea possui papel decisivo.

Enquanto cresce a taxa de pílulas discursivas que dão contornos a uma ameaça ou um pequeno conjunto delas, a aproximação das eleições deita as bases para o debate grupal em torno da determinação do candidato que mais diretamente represente um contraponto.

Nos grupos da família, trabalho e afins, esta discussão frequentemente prospera por algumas rodadas até ser vetada por força de seu caráter excessivamente panfletário, tal como acontece com as discussões em torno das pautas e personalidades associadas a outros tantos grupos organizados por interesses.

A inibição no que poderia ser a conversão desses grupos apolíticos em explicitamente partidários mitiga potenciais dissonâncias entre os apoiadores situados nos diferentes grupos digitais, os quais poderiam se incomodar com o fato do candidato que mais intensamente representa o núcleo de rechaços com os quais se alinham ser também o representante de proposições aplicadas, relacionadas a rechaços que lhes são menos pungentes e com os quais eventualmente não simpatizam.

Isso explica porque a maior parte da população brasileira declarou-se contra a reforma da previdência (http://bit.do/pesquisacompleta), a trabalhista (http://bit.do/reformatrabalhista), a revisão do estatuto do desarmamento (http://bit.do/liberacaodearmas) e assim por diante, mas elegeu um candidato que cultiva opiniões diversas a estas.

Há de se considerar a existência de críticas a estas pesquisas, bem como o fato de que as opiniões podem ter mudado, tanto em função de mudanças de visão, quanto em função da tendência mental para a redução da dissonância cognitiva, empiricamente verificada em situações análogas a esta (para um exemplo, ver: http://bit.do/cognitivedissonance).

Não tendo sido nenhum desses o caso, mantém-se ainda a perspectiva mais ampla de ausência de contradições, não sendo correto assumir que a população foi enganada.

 

Causas distais do contágio digital de natureza política

As causas proximais descritas têm um eixo distal, que lhes dá sustentação e tensiona-lhes. Seu aspecto central é a formação de evangelizadores, os quais extrapolam o nível de investimento pessoal médio que caracteriza os processos de cumplicidade pontual e efetivamente se engajam de maneira expressa e consciente na campanha.

Até a publicação de A Mathematical Theory of Communication (Shannon, 1948, http://bit.do/papershannon), acreditava-se que para garantir que uma mensagem fosse adequadamente transmitida seria importante aumentar ao máximo a energia da mesma. Shannon demonstrou que o correto é o aumento de sua redundância.

É evidente que grupo nenhum sobrevive de uma única mensagem; o tédio é inimigo do contágio. A ideia é que para navegar os grupos baseados em laços fracos, formado por pessoas com outros tantos interesses, as diferentes mensagens políticas devem despertar sentimentos fenomenologicamente aparentados, isto é, devem promover a recorrência afetiva.

Vivências intensas desta forma de recorrência afetiva reduzem a própria variância interna das paisagens mentais imbuídas pelos afetos, o que se converte em identificação projetiva com o líder catalisador das mesmas.

Quando isto ocorre, a disseminação das externalidades associadas ao líder passa a ser experimentada como propagação energizada de si mesmo, o que então se torna intrinsecamente reforçador.

Tecnicamente, as vias eferentes das estruturas subcorticais que trafegam experiências somatossensoriais de conotação afetiva irrigam o hipocampo, o qual serve de relê à estocagem das representações episódicas e autobiográficas, que injetarão conteúdo nos modelos mentais formados pela atividade multimodal no córtex frontal e que, por meio de eferências dopaminérgicas, exibem a propriedade de reduzir o limiar motivacional à ação. Pelo processamento recorrente de engramas de alta saliência e valência recorrente, atribuições autobiográficas mapeiam-se sobre as episódicas, que passam a ser intrinsecamente reforçadas, formando uma unidade cognitivo-comportamental retroalimentada, na qual a figura do líder resolve o problema da entropia biocomputacional, de maneira top-down, orientando a atenção de caráter covert.

Com isso, a propagação que ocorre contextualmente sob o signo da cumplicidade ganha independência, tornando o sujeito um evangelizador, mecanismo distal que suporta as manifestações proximais, responsáveis pela faceta pública deste novo modelo de contágio político.

O evangelizador é o agente ideológico da política tradicional; no contexto do neoconservadorismo, sua atuação mais firme na esfera pública remonta aos protestos de 2013.

Neste sentido, a nova dinâmica discursiva não preconiza uma redefinição das bases mais profundas da política, mas tão somente de suas manifestações proximais, afetando a captação de prospects.

Esta formação desponta como verdadeira faca de dois gumes, assim tendo sido nesta eleição.

Conforme o suporte à campanha traduz-se em esforços para catalisar inclinações nos grupos apolíticos, o evangelizador multiplica a força de propagação das mensagens de interesse e toda a cadeia de eventos associada. Conforme recai em tentativas de doutrinação direta, faz soar o apito da manipulação panfletária, pondo em risco a captação.

No final, a grande ironia da dinâmica discursiva neoconservadora é que seus maiores entusiastas podem ser seus detratores e seus maiores detratores subsidiam seus entusiastas.

 

Acréscimos e limitações

Este artigo parte do questionamento da premissa de que os fatores locais, globais e mistos, que endossam os mais conhecidos raciocínios explicativos para o desempenho de Bolsonaro ao longo da campanha, possam efetivamente explicar a dinâmica de voto desta eleição.

A nossa visão é de que eles têm relevância, mas devem ser articulados sobre uma base reflexiva em que novas manifestações da coordenação pelo rechaço ganham poder translacional. A vantagem dessa abordagem está em sua capacidade de adaptação a novos contextos eleitorais. Esta, evidentemente, é também a sua aposta, cabendo ao futuro determinar o seu valor.

O modelo proposto deixa uma série de pontos em aberto. Estes tanto podem servir para desenvolvimentos que aprofundem a criação aqui exposta, quanto à descoberta de vulnerabilidades que recomendem ajustes conceituais.

Um aspecto a se considerar é o grau de intencionalidade consciente no estabelecimento desta forma de coordenação pelo rechaço, sob a égide de princípios mercadológicos.

Outro é o papel das estratégias profissionais, na formação do voto. Esta é particularmente delicada, já que dimensiona o impacto real da dinâmica descrita, a qual é toda pautada pela premissa de que as atuações espontâneas e intrinsecamente amadoras tiveram papel de relevo, em consonância com o que sugerem vários indícios.

Há também a importância da escolha afirmativa, dada pela identificação direta com o programa de governo da chapa vencedora, ou ainda com as propagandas veiculadas na televisão e outros meios.

Finalmente, devemos considerar que as comparações com os outros países latino-americanos podem trazer uma série de acréscimos aos entendimentos locais, tal como a aplicação da modelagem conceitual proposta a outros países latino-americanos pode exigir uma série de adaptações.