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A determinação do momento em que a vida humana encerra-se é importante em múltiplos sentidos. Ela marca um ponto de virada na relação entre as famílias e aqueles que se vão, leva à desmobilização de cuidados clínicos, além de possuir relevância religiosa.

É fácil dizer de um corpo preparado para dissecação, que está morto, tal como é fácil dizer das pessoas que estão em torno do mesmo, que estão vivas.

Conforme aproximamo-nos do momento em que estes dois estados se separam, as coisas tornam-se mais incertas.

Até os anos 1980, a determinação clínica do óbito era dada pela ausência de atividade cardiovascular; desde então, esta passou a ser aferida pelo encerramento da atividade cerebral, também conhecida como morte por critério neurológico (https://tinyurl.com/yak6wr5t).

Este critério otimiza os processos de doação de órgãos, beneficiando milhares de pessoas, mas nem por isso é incontroverso, dado que diferentes partes do sistema nervoso param de funcionar em diferentes momentos, em consonância com o que ocorre fora deste. Ainda assim, a grosso modo, funciona.

Porém, o assunto acabou de se complicar pela surpreendente demonstração de que existe significativa atividade genética após o encerramento da atividade cerebral. Um exemplo é o do fator de crescimento EGR3, que passa a se expressar intensamente cerca de quatro horas após o óbito (https://tinyurl.com/y8lxaodl).

Genes regulam processos fundamentais do nosso corpo, do que se entende que alguns destes processos renovam-se em pleno necrotério. Isto não ocorre apenas em humanos. Estudos com ratos mostram que existem genes sobre-ativados até quatro dias após o falecimento do animal (https://tinyurl.com/ya4vtekl).

Não acredito que haja grande sabedoria a se extrair da constatação de que não somos a mera somatória de nossas células, incluindo aquelas que respiram aliviadas, quando percebem que se livraram de nós.

Longe de mim achar que esta irredutibilidade tem a ver com alma, consciência ou ego; pelo menos neste caso, ela parece ter mais a ver com as propriedades sistêmicas do organismo, sem as quais ele não é de nada.

Porém, uma coisa é verdade: os órgãos que saem desses sistemas que pararam de funcionar e vão parar dentro de outros sistemas, em pleno funcionamento, são bem menos inertes do que se imaginava.

Além disso ter importância científica, eventualmente ajudando a explicar porque as chances de câncer aumentam em quem recebe um transplante (https://tinyurl.com/ycr46zuw), a ideia de genes de uma pessoa morta expressando-se dentro do corpo de uma pessoa viva é das mais fortes que consigo imaginar.

Ausente de sentido profundo, diria que ainda assim é um marco, no ramo da não-ficção.