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Falar em câmbio no Brasil se tornou tarefa cotidiana. Nos últimos anos, especialmente nos últimos meses, com o desempenho aquém do esperado da economia brasileira, os diversos desafios do cenário externo e as incertezas políticas, o tema se fez ainda mais presente. E a pergunta de ouro sobre câmbio diz respeito às variáveis que determinam a relação de troca entre as diversas moedas (leia-se, a taxa de câmbio).

Dentre esses elementos, os diversos instrumentos de política econômica – política monetária, fiscal e cambial – possuem centralidade. Estes fundamentos da taxa de câmbio conjuntamente condicionam dois movimentos. Um deles é uma entrada líquida de moedas estrangeiras que, por sua vez, constitui uma demanda por moeda nacional e conduz a uma apreciação/valorização da moeda nacional. O outro é saída líquida de divisas que constitui uma demanda líquida de moedas estrangeiras contra moeda nacional e conduz à depreciação/desvalorização da moeda nacional.

Em suma, os instrumentos de política econômica atuam ao longo do tempo para estimular maior entrada ou saída de moedas estrangeiras, a fim de atender, a princípio, os interesses da nação. Entretanto, no sistema internacional cada país ajusta seus instrumentos de política econômica simultaneamente e de acordo com seus respectivos interesses. Isso estabelece um jogo global de interesses que influencia diretamente as diversas taxas de câmbio.

No primeiro semestre de 2018, o câmbio estava em torno de R$ 3,26. Em 5 de janeiro de 2018, o Relatório Focus do Banco Central registrava expectativa ao redor de R$ 3,34 ao final de 2018. Nossa projeção a essa altura era de R$ 4,00 para o final do ano, uma vez que enxergávamos uma pressão significativa de desvalorização do real por conta especialmente da perspectiva de alta dos juros nos Estados Unidos.

A perspectiva do desempenho da economia brasileira também alimentava nossas perspectivas. O Focus registrava uma expectativa para o PIB em torno de 2,7% ao fim de 2018. Nossa leitura girava em torno de 1%. Essa combinação de fatores geraram um ambiente em que mais dólares saíram do Brasil. As forças de oferta e demanda cumpriram seu papel tornando o dólar mais caro por aqui.

Com o início da corrida eleitoral, as perspectivas de quem conduziria o Brasil pelos próximos quatro anos começaram a ser precificadas. Gerou-se um consenso em torno do caminho necessário: reformas. Assim, quem estivesse alinhado com o discurso pró-reformas criava um ambiente de valorização do real. Quem divergisse, gerava o efeito contrário e o dólar ficava mais caro.

Mesmo com a vitória de Jair Bolsonaro, o dólar não cedeu completamente. Isso se deu por não haver um caminho claro para a condução das reformas e os seus reais impactos - além das divergências entre o discurso de campanha e o que tem sido diariamente apresentado.

Não nos esqueçamos, por fim, dos fortes indícios de uma possível crise financeira internacional em função dos movimentos nas bolsas estadunidenses, dos problemas expressivos nos balanços de pagamentos de Argentina e Turquia, e da forte queda no preço de algumas commodities importantes como o petróleo.

A combinação dessas variáveis internas e externas reforçam a tendência de câmbio desvalorizado, ainda que no curto prazo a euforia e as escolhas do mercado joguem em prol de um câmbio apreciado.

andre.galhardo@analiseeconomica.com.br