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São Paulo - As operações do Carrefour no Brasil devem ser alvo de disputa entre o Pão de Açúcar (GPA) e o Walmart. Isso porque o grupo norte-americano Walmart contratou serviços de uma consultoria europeia para analisar oportunidades de fusão e aquisição. No último domingo, o GPA informou estar em negociando com o Carrefour.

O Walmart, maior grupo varejista do mundo, levará uma equipe para Londres para buscar oportunidades de fusão e aquisição na Europa e contratou a Cushman & Wakefield para procurar um escritório com capacidade para entre 35 e 55 pessoas, segundo informações do mercado europeu.

Na visão do professor de Governança Corporativa da Trevisan Escola de Negócios, Roberto Gonzalez, fusão entre Walmart e Carrefour seria mais fácil devido à liberação Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e ao posicionamento que cada um tem sobre o mercado brasileiro. Hoje o Pão de Açúcar é a maior rede de supermercados do país com faturamento de R$ 29 bilhões em 2010. Na seqüência está o Carrefour, com R$ 29 bilhões. O Walmart ocupa a terceira posição com R$ 22,3 bilhões. "É muito mais fácil unir o segundo e o terceiro lugar, pois evita a criação de um monopólio e ainda mantém uma visão de concorrência muito mais clara para o consumidor", explica.

Quem concorda em que para o setor a fusão entre Carrefour e Walmart é melhor do que entre Pão de Açúcar e Carrefour é o advogado da Demarest e Almeida Advogados, Mario Nogueira. "A união entre o grupo GPA e o varejista francês deve gerar uma série de problemas no Cade, pois as lojas das duas redes se encontram muito próximas uma das outras principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, enfatiza. Ele ainda explica que este fator é determinante para a liberação ou não da fusão, pois segundo o órgão regulador as lojas precisam ter no mínimo três quilômetros de distância, o que não acontece nas cidades citadas. Na visão do Bank of America Merrill Lynch um acordo deste tipo levantaria questões de concorrência e provavelmente receberia oposição do grupo francês Casino, rival do Carrefour e dono de 35% do grupo Pão de Açúcar.

Uma possível fusão levaria Pão de Açúcar e Carrefour a responderem, somados, por quase 28% do setor supermercadista brasileiro. O Wal-Mart, atualmente, ocupa a terceira posição no País, com 11,2% do mercado.

O jornal francês Le Journal du Dimanche publicou, sem citar fontes, que o Carrefour, maior varejista da Europa, tinha dado mandato para o banco de investimento Lazard estudar uma transação que poderia envolver a família controladora do Pão de Açúcar assumindo uma participação no Carrefour.

Segundo informações do mercado, a tentativa de aproximação com a CBD seria um sinal da crescente pressão sobre o Carrefour para elevar o valor dos seus ativos antes de uma reunião de acionistas que está marcada para o próximo mês. Na ocasião, também será decidido o futuro da rede de supermercados Dia, forte no Brasil e na Espanha e controlada pelo gigante varejista francês.

Representantes do Pão de Açúcar, do Carrefour e do Walmart não comentaram o assunto.

Entenda o caso

Depois do rombo de 1,2 bilhão de reais nas contas da operação brasileira do Carrefour, descobertos em novembro, a alta nas vendas locais não foram suficientes para sanar os problemas financeiros. Deixar o Brasil - o segundo maior mercado do grupo no mundo - está fora dos planos do Carrefour. A venda à concorrência seria uma medida desesperada para recuperar suas contas. "Foi divulgado um valor do rombo, mas ele pode ter sido minimizado", pondera Lupoli. "Poderia ser uma quantia maior que levasse o grupo a essa decisão extrema de negociar a operação brasileira".

O próprio presidente da rede, o francês Lars Olofsson, reconheceu, na ocasião, que houve problemas. "O que aconteceu foi claramente um mau funcionamento", afirmou ele, em teleconferência com analistas e investidores, segundo a agência Dow Jones.

Não seria a primeira vez que o Carrefour abandonaria um mercado. Para reforçar o caixa, a varejista francesa vendeu as operações tailandesas em novembro para, veja só, o concorrente Casino, por considerar que elas não eram rentáveis. Esse foi o oitavo país do qual o Carrefour saiu nos últimos sete anos.

Para justificar a decisão, a rede afirmou que sua perspectiva de crescimento no país não condizia com a estratégia de focar em países onde poderia ocupar a liderança. O caso brasileiro, no entanto, reforçaria a má gestão da empresa - um ponto criticado por analistas - e poderia colocar ainda mais em risco o futuro do Carrefour.

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