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Na proporção em que o universo online transforma as mídias impressas tradicionais, o mercado livreiro se desdobra para sair de uma crise sem precedentes. Dentro desse contexto, as pequenas redes de livrarias começam a ver uma oportunidade para aumentar as vendas em nichos literários específicos – por vezes desassistidos em termos de oferta.

“As grandes redes de livrarias vem se tornando cada vez mais iguais, reduzindo a variedade de livros e priorizando os produtos que têm giro de vendas bem mais rápido – os best-sellers”, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Livrarias (ANL), Bernardo Gurbanov.

Para o presidente da entidade, nos últimos anos, as pequenas livrarias têm adotado estratégias voltadas para segmentos de livros específicos e aprimorado o atendimento individual com os leitores. “As estruturas gigantes de livrarias e concorrência predatória entre as redes não faz mais sentido. Simultaneamente a isso, vemos uma espécie de revitalização das pequenas livrarias, que buscam realizar um atendimento individualizado para cada cliente”, afirmou Gurbanov.

Ao mesmo tempo em que determinados segmentos de leitores são mais assistidos por esses negócios, Gurbarov afirma que há um movimento para que esses ambientes se tornem centros culturais nos bairros da cidade, atuando de forma regional.

Em linha com o raciocínio do presidente da entidade, o diretor comercial da rede Livrarias Curitiba, Marcos Pedri, conta que houve a necessidade de abertura de um novo centro de distribuição, em São Paulo, justamente com o objetivo de absorver a demanda de literaturas específicas. “Há uma grande guerra de preços dentro da categoria de best-sellers. Preferimos adotar uma estratégia de ‘calda longa’, na qual valorizamos também os nichos mais segmentados para nos aproximar ainda mais desses clientes”, declarou Pedri, ressaltando que as lojas físicas da rede diminuíram também de tamanho e passaram a contar com a logística de entrega do novo CD. Para este ano, a estimativa é que o volume de vendas aumente entre 5% e 7% ante 2017.

Segundo ele, esse processo de especialização em demandas específicas, como por exemplo livros acadêmicos raros, fez com que as unidades da rede se transformassem também em centros de convivência, resultando em maior fidelidade por parte dos consumidores da loja. “Percebemos que nossos clientes valorizam eventos segmentados, como por exemplo debates sobre empreendedorismo”, disse o executivo, mencionando que são realizados 900 eventos por ano no negócio.

Partilhando de posicionamento similar ao de Pedri, a proprietária da livraria especializada em literatura infantil Casa de Livros, Maria Angela Aranhã, afirma que a combinação entre o foco no público infanto-juvenil e a atuação regional tem sido importante para as vendas da loja.

“Realizamos parcerias com escolas da região de Santo Amaro [em São Paulo] para levar o público à livraria também por meio de eventos semanais”, afirmou ela, destacando que os livros voltados para a faixa-etária entre 0-6 anos é a que apresenta maior demanda. Para Maria Angela, a proximidade com as escolas também contribui para que o tíquete médio aumente, tendo em vista que os livros infantis didáticos são mais caros.

Essa perspectiva de aproximação com o cliente também serve de “mantra” para o proprietário da livraria Martins Fontes, Alexandre Martins Fontes. “Os pontos básicos para ter um bom desempenho nesse mercado são: uma boa localização, uma equipe de profissionais capaz de atender de forma eficiente o leitor, acervo rico de livros, e um ambiente agradável com cafés e auditórios”, afirmou Fontes.

Segundo ele, essa organização voltada para o atendimento individualizado não seria possível em uma grande rede.

Ainda segundo o executivo, resultados dessa postura são os indicadores de desempenho da livraria. No acumulado do ano, o negócio cresceu 28% em volume de vendas e, em relação ao mês de outubro, a comercialização cresceu 40% ante o mesmo período de 2017.