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A venda de produtos licenciados, consolidada nas lojas infantis, ganhou de vez as prateleiras das varejistas voltadas aos jovens do universo geek – formado por aficionados em HQs, animes, séries e tudo que envolva a cultura popular. Se antes o mundo nerd era só um pedaço do mercado teen, hoje esse perfil de consumidor é disputado por grandes redes.

“O mercado geek está em ascensão. Ele deixou de ser um nicho e virou realmente um mercado. Por conta disso, começamos a investir cada vez mais em marketing para surfar essa onda de forma mais orgânica”, diz o sócio-fundador da rede de franquias Piticas, Felipe Rossetti.

A marca, especializada na produção e venda de camisetas de personagens do mundo geek, apostou em diversas linhas de licenciamento para atender todo o tipo de nerd. E a decisão resultou em bons frutos: com 306 unidades em operação – 108 delas abertas neste ano – a empresa chegou a todos os estados brasileiros e, entre lojas e quiosques, estima faturamento de R$ 120 milhões neste ano, 54% acima de 2016.

Com a ebulição desse mercado, muitas varejistas, inclusive as grandes, procuraram formas para atender a demanda desses consumidores, impulsionando o licenciamento de marcas e personagens icônicos no País. Segundo a Associação Brasileira de Licenciamento (Abral), esse segmento movimenta R$ 18 bilhões por ano. “Ainda temos muito espaço para crescer, principalmente no segmento adulto que representa 40% do total no Brasil”, diz a presidente da Abral, Marici Ferreira.

Apesar do amplo potencial, o processo burocrático por parte das detentoras dos direitos autorais e a pirataria ainda prejudicam bastante o setor. “Não é fácil você adquirir licenças. Nós passamos, por exemplo, por uma certificação bem complexa da Disney. Tudo tem que ser aprovado pela matriz. Eles nos fornecem um guia de artes e dentro desse guia, podemos fazer o que quisermos, mas existe muita limitação”, diz Rossetti.

Os queridinhos

Dentre os personagens preferidos por esse público, destacam-se as linhas de produtos Star Wars, DC Comics, Marvel e Harry Potter, mas também há espaço para personagens clássicos dos games, como a linha Mario Bros, e da cultura brasileira, como Turma da Mônica, Chaves e Chapolin – estes dois últimos licenciados pelo SBT.

Fisgar esse público pode não ser tarefa fácil, mas é bastante rentável. Formado basicamente por jovens, solteiros e com um poder aquisitivo razoável, a Imaginarium recheou as gôndolas este ano com produtos licenciados. "Os licenciamentos vêm ganhando uma participação importante nos nossos negócios. Os produtos das marcas Harry Potter e Star Wars são muito fortes para nós”, admite o diretor comercial da Imaginarium ao DCI, Donato Ramos.

E é com o apoio desse consumidor que a rede pretende encerrar 2017 com faturamento de R$ 276 milhões, 18% maior que o ano anterior.

Para atender melhor seus consumidores, a Imaginarium investiu em um novo modelo de loja este ano – 10% mais custoso em relação ao modelo anterior. "Tivemos uma renovação no nosso projeto de lojas. Elas estão mais iluminadas agora. Isso foi importante para rejuvenescer a marca. Inauguramos 38 lojas nesse novo projeto”, afirma Ramos.

Com a pretensão de diversificar a operação e ganhar consumidores de perfis distintos, o Grupo Uni.co – antigo Grupo Imaginarium – anunciou recentemente a aquisição totalitária da Puket, varejista de pijamas, meias e acessórios. “Essa aquisição faz parte do projeto de ser uma plataforma de marcas de destaque do varejo”, comenta Ramos. Em fevereiro deste ano, a empresa já havia comprado a MinD, voltada à decoração da casa. Fora elas, a marca Ludi completa as bandeiras do Grupo Uni.co.

Caminho inverso

Se o investimento em licenciamento está aquecido no universo geek, também há quem aposte no caminho inverso, como a rede especializada em presentes Uatt?, que viu a coruja Bubu, personagem criado pela marca, transformar-se em um desenho animado que despertou o interesse de vários canais televisivos do público infantil. “Ao longo do processo de construção de sortimento, optamos por não trazer marcas para o nosso negócio. Ao invés disso, a Uatt? criou uma marca para ser licenciada”, afirma a diretora de inovação e marketing da Uatt?, Carol Toledano.

Devido à crise, a Uatt? mudou a estratégia de negócios e desistiu da operação por franquias, fechando cerca de 50 lojas em 2016. Agora, atuando em lojas multimarcas, marketplaces e e-commerce, a empresa pretende faturar R$ 50 milhões em 2017, avanço de 22% em relação ao ano anterior.