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Diante do processo de precarização de investimentos públicos em exposições e iniciativas ligadas à cultura, os museus brasileiros descobrem canais alternativos para captação de recursos financeiros. Entre as novas rotas, está a abertura de cafés, restaurantes e o comércio de souvenirs.

“A ideia é que o visitante possa ter uma experiência completa no ambiente. Devemos lembrar que, na condição de estarem em consonância com a exposição, essas unidades de negócios têm evoluído em termos de importância e ajudado na sustentabilidade financeira do museu”, afirmou o diretor de operações e finanças do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Fábio Frayha.

O executivo conta que, devido ao crescimento desses comércios nos últimos quatro anos, existe um trabalho conjunto entre a curadoria do museu e a administração dos negócios para alinhar o mix de produtos à venda. Ainda de acordo com ele, o tíquete médio dos visitantes gira em torno de R$ 60. Já em relação ao número de visitas em 2018, foram registradas 450 mil. A meta do Masp é que esse número atinja 500 mil até o final de dezembro – alta de 10% ante 2017.

“Temos linhas de produtos regulares, mas outros itens são incluídos de acordo com o tema e proposta da exposição. Percebemos também uma evolução importante na venda dos catálogos e livros com a marca do museu”, declarou Frayha.

Partilhando de visão similar a do diretor de operações e finanças do Masp, a museóloga da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Cecilia Machado, destacou o efeito de difusão que esses pequenos souvenirs têm sobre os visitantes e também outros potenciais frequentadores. “Quando se vai ao museu e há o consumo [de souvenirs], esses itens se tornam também materiais de comunicação com o visitante, se colocando também como símbolos e lembranças daquela experiência no cotidiano do indivíduo”, afirmou Cecilia.

Embora esses negócios tenham ganhado espaço no orçamento dos museus e institutos nos últimos anos, a especialista alerta que o descaso e ausência de políticas públicas voltadas para esse campo podem resultar em tragédias, como foi o caso do incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. “É temerário quando não falamos sobre cultura em uma campanha política. A falta de valorização desses patrimônios públicos também vem dos governantes de estados e municípios”, complementou a especialista.

Nesse sentido, ela lembra também que o convívio social dos visitantes nos cafés e restaurantes é importante no processo de valorização dos ambientes. “Vale lembrar também que esses ambientes devem estar afinados em termos de comunicação entre a curadoria e os negócios. Com isso, torna-se um local de socialização e debates ”, concluiu ela.

Nessa linha, outro exemplo de museu que vem ajustando o ambiente com a finalidade de elevar o fluxo de visitantes é o Museu de Imagem e Som (MIS). “Há sete nos, não tínhamos o café, a loja de souvenirs e o restaurante. Apenas o estacionamento. De lá para cá, houve uma guinada na atuação do museu”, afirmou o diretor de gestão e finanças do MIS, Jacques Kann.

De acordo com o executivo, em virtude da faixa-etária dos visitantes do museu estar entre 19 e 34 anos, os ambientes como o café e o restaurante foram pensados para dialogar com esse público, com uma atmosfera mais jovial.

“Os visitantes que vão para o museu, acabam indo também para o restaurante. E vice-e-versa, mesmo com entradas independentes entre os ambientes”, afirmou Kann.

Ele diz que esses negócios representam 3% da receita total do museu, o qual recebe a maior parte de financiamento por meio de repasses públicos. “Até o final de outubro, registramos a visita de 300 mil pessoas, número bem acima da nossa meta. Até o final de dezembro, esperamos receber mais 40 mil pessoas”, disse.

Assim como o Masp, o MIS dispõe de um mix de produtos fixo e outro “temporário”, o qual é alterado conforme o tema da exposição. Além disso, Kann diz que o museu recebe o aluguel pela utilização desses espaços, os quais são administrados por terceiros.