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São Paulo - Enquanto a recessão que o País enfrenta derruba os lucros de boa parte dos varejistas, os chamados 'negócios da crise' podem salvar o faturamento de outros. Um bom exemplo disso são os brechós de produtos infantis, que surgem como economia inteligente e incrementa ganhos de pequenos empreendedores.

Com descontos de até 85% nos produtos, as lojas físicas e e-commerces apostam na venda de itens novos e seminovos. "A possibilidade de comprar roupas com preços significativamente mais baixos tende a ganhar mercado e a operação se torna uma boa oportunidade de negócio para os empresários", diz o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (ibevar), Claudio Felisoni.

Segundo ele, este momento que o País enfrenta é muito bom para esse nicho de mercado e mostra que a crise não impacta todos os negócios na mesma proporção. "O que pode ser problemas para alguns é a solução e oportunidade para outros", ressalta.

Foi contando com isso que o e-commerce Retroca foi fundado em 2013 por dois empresários que trabalhavam no mercado de investimentos. "Vimos a oportunidade de unir uma operação de e-commerce com a venda de produtos em bom estado para o público infantil. Esse mercado tem uma alta taxa de compra, pois as crianças crescem rápido e precisam de novas roupas constantemente", comenta o sócio fundador Pedro Romi.

Hoje, a empresa comercializa apenas roupas e sapatos para crianças de 0 a 12 anos, e conta com mais de seis mil peças "Os descontos variam de acordo com as peças, mas em média são em torno 70%, mas as peças com pequenos defeitos o desconto podem chegar a 85%", ressalta Romi.

Para 2016, o Retroca projeta dobrar o valor faturamento e chegar em uma receita de R$ 2 milhões. A perspectiva de crescimento ganhou força, após a companhia receber um aporte no fim do ano passado.

Efeito crise

Outro ponto positivo da crise na operação, explica Romi, foi o avanço no número de fornecedoras de roupas. "Nos últimos meses percebemos o aumento do número de pessoas que nos procuram para vender as peças", observa.

Uma das estratégias do Retroca é retirar os produtos na casa dos fornecedores sem cobrar frete. Uma das exigências é que as peças estejam lavadas e em bom estado para uso, sem defeitos ou rasgadas.

Quem também aposta no mercado de brechós é a empresária Elizabeth Cristina Casaes. Ela usou as percepções de consumidora de brechós para montar o Repeteco, que há 13 anos funciona no bairro do Brooklin, em São Paulo. "Sempre fui uma frequentadora assídua de brechós e pensei em montar uma loja do segmento que reunisse boas oportunidades em um ambiente limpo, claro e agradável".

A diretora do Repeteco projeta uma alta de 10% na receita da loja para este ano. Mesmo com a crise, em 2015, a empresária conseguiu atingir um crescimento de 18% e contratou duas funcionárias.

Impulsionadas pela situação econômica do País, muitas mães que antes doavam as roupas agora vendem para o Retroca para conseguir aumentar a renda familiar e até comprar mais roupas para os

filhos, destaca a empresária

"Antes não comprávamos em janeiro. Mas o número de pessoas ligando para vender aumentou e estamos aproveitando para completar o estoque", ressaltou ela.

Segundo ela, no ano passado, o tíquete médio das compras diminuiu, mas investir em atendimento foi uma forma de manter a fidelidade dos consumidores. "Investimos em treinamento das funcionárias que ajudam as mães de primeira viagem no número e tipo de peças para o enxoval", disse.

Outra bandeira que aposta em visual de loja para operação de brechó e a loja Xereta. "Estamos há sete anos no mercado e quando as pessoas entram na loja precisamos avisar que se trata de um brechó", explica a sócia da Xereta, Tânia Dagnino, proprietária.

Para 2016, a empresária projeta um crescimento de até 15%. No ano passado, a empresa registrou um faturamento de R$ 400 mil, em linha com 2014. Assim como a bandeira Repeteco, a Xereta comercializa diversos produtos e segundo Tânia, os consumidores têm descontos de até 70.

Desafio

Tânia explica ainda que um dos desafios é conseguir fazer boas compras. "As clientes procuram produtos de marca, como GAP e Tommy Hilfiger".

Outro atrativo da loja, assim como a operação da loja Repeteco, é expor os produtos organizados por tamanho, limpos e em bom estado de uso.

Segundo a empresária, a crise pode fomentar o mercado de brechós infantis por todo o País. "As pessoas estão procurando produtos mais baratos. Temos um publico crescente de crianças que estão habituadas a comprar produtos na loja". De acordo com Tânia, outro movimento comum é que muitas mães que vendem os produtos para o brechó, já aproveitam o valor da venda para comprar outras peças.

Semelhante ao movimento visto nas outras empresas, a loja Xereta também vislumbrou um aumento de fornecedores. "Sentimos uma alta no número de fornecedores, principalmente, a partir de novembro do ano passado", comenta Tânia, lembrando que pessoas que nunca venderam começaram a trazer os produtos.