Jango em Paris

Em 1976, acabada aConsti- tuinte portuguesa que deu a vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, ia começar a da Espanha, convocada para 1977. – Soube que o ex-presidente João Goulart estava em Paris, cuidando do sofrido e alquebrado coração. Estava hospedado no Hotel Claridge, a três quadras do Arco do Triunfo. Fui lá deixar-lhe um cartão com um abraço brasileiro. Na portaria, saindo do hotel, encontrei o Carlos Castello Branco, que fora visitá-lo e conversar com ele. Saía preocupado:- O Jango não está bem, muito pálido e inconformado com o exílio. Deixei um bilhete, com o telefone do hotel onde estava hospedado, ao lado do Arco do Triunfo. No dia seguinte, um recado do presidente. Esperava-me para uma conversa. Fui. Conversamos horas. O Castelinho tinha razão. A ditadura militar estava assassinando Jango.Claridge O Claridge, onde tantas vezes me hospedei quando era no máximo de U$ 200 a diária, faz parte da história cultural, política e militar de Paris. Fundado em 1911, nele viveram artistas, escritores e generais alemães. Colette, a dama das letras, morou lá, como o cantor Maurice Chevalier. Quando Hitler invadiu Paris, em 1940, o marechal Von Rundstedt, (com seu ajudante-de-ordens, o coronel Paulus), comandante das tropas alemãs, ocupou a suíte central, a mais bonita. Mas seu QG ficou na Avenue Kleber. Quando a guerra acabou, o diretor M. Machenaud, serviçal e puxa-saco, foi preso e executado pelas tropas de De Gaulle. Em agosto de 1945 os nazistas derrotados foram substituídos por gente melhor, como Marlene Dietrich, Jean Gabin, Edith Piaf, Manoel Fangio, Evita e Juan Perón, Ella Fitzgerald, George Simenon, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Ray Charles, Jane Mansfield, Curd Jurgens, Luis Buñuel, de novo Perón, de novo com sua Izabelita, Pavarotti, e tantos outros. Jango espichava a dura perna direita, olhava os móveis e as cortinas do bar, bebia mais um uísque, infinitamente triste. Ia morrer. Jorge FerreiraVim pensando em tudo isso no avião, lendo a excelente biografia de João Goulart, bem escrita, bem documentada e verdadeira, do professor e historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPQ e da Faperj. Não foi novidade para quem já conhecia suas exemplares e convincentes pesquisas sobre o trabalhismo brasileiro: O Imaginário Trabalhista – Getulismo, PTB e Cultura Política Popular; Prisioneiros do Mito – Cultura e Imaginário Político dos Comunistas no Brasil; O Populismo e sua História, Debate e Crítica. Jango1. “Em setembro [de 1976], João Goulart viajou para a Europa. Vários foram os motivos. O primeiro foi fugir das ameaças que passara a sofrer na Argentina. Precisava tomar providências para encontrar uma residência em Paris. Lá residiria até o retorno ao Brasil. As intimidações que pesavam sobre sua vida e a de seus familiares no Cone Sul o obrigavam a isso. Em Paris, encontrou-se com Abelardo Jurema e também com José Gomes Talarico, a quem pediu que procurasse Mário Soares a fim de agradecer-lhe o convite para ir a Portugal.”2. “Não deveria aceitar, alegou, pelo constrangimento que causaria ao líder português, no início de seu mandato, diante do governo brasileiro. Mas pedia que ele regularizasse a situação dos exilados brasileiros em Portugal. Soube também que Mário Soares manifestara preocupação com Brizola vivendo sob a ditadura uruguaia. E sugeriu que ele fosse para Portugal, onde imediatamente teria trabalho.” Coração3. “Mas a razão mais séria da viagem foi a pressão da família e do médico uruguaio para se consultar com dois especialistas europeus, um em Paris, outro na Suíça. O médico suíço, após uma série de exames, concluiu que o coração de Jango era frágil como o de um homem de 80 anos, quando, na época, tinha apenas 56. O médico francês disse que sem perder peso e parar de fumar a medicina nada poderia fazer por ele, completando: -Monsieur le Président, si on ne veut pas vivre, on ne vit pas.”Embora ouvisse as reclamações médicas, não as seguia. Negava-se a parar de fumar. De Lyon, escreveu uma carta para Cláudio Braga: “Estou concluindo exames médicos, com resultados bem razoáveis, especialmente considerando que não me sujeitei nunca a prescrições”.Em 6 de dezembro de 1976, Jango morria numa fazenda na Argentina.

Em 1976, acabada aConsti- tuinte portuguesa que deu a vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, ia começar a da Espanha, convocada para 1977. – Soube que o ex-presidente João Goulart estava em Paris, cuidando do sofrido e alquebrado coração. Estava hospedado no Hotel Claridge, a três quadras do Arco do Triunfo. Fui lá deixar-lhe um cartão com um abraço brasileiro.

Na portaria, saindo do hotel, encontrei o Carlos Castello Branco, que fora visitá-lo e conversar com ele. Saía preocupado:

– O Jango não está bem, muito pálido e inconformado com o exílio. Deixei um bilhete, com o telefone do hotel onde estava hospedado, ao lado do Arco do Triunfo. No dia seguinte, um recado do presidente. Esperava-me para uma conversa. Fui. Conversamos horas. O Castelinho tinha razão. A ditadura militar estava assassinando Jango.

Claridge

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O Claridge, onde tantas vezes me hospedei quando era no máximo de U$ 200 a diária, faz parte da história cultural, política e militar de Paris. Fundado em 1911, nele viveram artistas, escritores e generais alemães. Colette, a dama das letras, morou lá, como o cantor Maurice Chevalier.

Quando Hitler invadiu Paris, em 1940, o marechal Von Rundstedt, (com seu ajudante-de-ordens, o coronel Paulus), comandante das tropas alemãs, ocupou a suíte central, a mais bonita. Mas seu QG ficou na Avenue Kleber.

Quando a guerra acabou, o diretor M. Machenaud, serviçal e puxa-saco, foi preso e executado pelas tropas de De Gaulle. Em agosto de 1945 os nazistas derrotados foram substituídos por gente melhor, como Marlene Dietrich, Jean Gabin, Edith Piaf, Manoel Fangio, Evita e Juan Perón, Ella Fitzgerald, George Simenon, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Ray Charles, Jane Mansfield, Curd Jurgens, Luis Buñuel, de novo Perón, de novo com sua Izabelita, Pavarotti, e tantos outros.

Jango espichava a dura perna direita, olhava os móveis e as cortinas do bar, bebia mais um uísque, infinitamente triste. Ia morrer.

Jorge Ferreira

Vim pensando em tudo isso no avião, lendo a excelente biografia de João Goulart, bem escrita, bem documentada e verdadeira, do professor e historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPQ e da Faperj. Não foi novidade para quem já conhecia suas exemplares e convincentes pesquisas sobre o trabalhismo brasileiro: O Imaginário Trabalhista – Getulismo, PTB e Cultura Política Popular; Prisioneiros do Mito – Cultura e Imaginário Político dos Comunistas no Brasil; O Populismo e sua História, Debate e Crítica.

Jango

1. “Em setembro [de 1976], João Goulart viajou para a Europa. Vários foram os motivos. O primeiro foi fugir das ameaças que passara a sofrer na Argentina. Precisava tomar providências para encontrar uma residência em Paris. Lá residiria até o retorno ao Brasil. As intimidações que pesavam sobre sua vida e a de seus familiares no Cone Sul o obrigavam a isso. Em Paris, encontrou-se com Abelardo Jurema e também com José Gomes Talarico, a quem pediu que procurasse Mário Soares a fim de agradecer-lhe o convite para ir a Portugal.”

2. “Não deveria aceitar, alegou, pelo constrangimento que causaria ao líder português, no início de seu mandato, diante do governo brasileiro. Mas pedia que ele regularizasse a situação dos exilados brasileiros em Portugal. Soube também que Mário Soares manifestara preocupação com Brizola vivendo sob a ditadura uruguaia. E sugeriu que ele fosse para Portugal, onde imediatamente teria trabalho.”

Coração

3. “Mas a razão mais séria da viagem foi a pressão da família e do médico uruguaio para se consultar com dois especialistas europeus, um em Paris, outro na Suíça. O médico suíço, após uma série de exames, concluiu que o coração de Jango era frágil como o de um homem de 80 anos, quando, na época, tinha apenas 56. O médico francês disse que sem perder peso e parar de fumar a medicina nada poderia fazer por ele, completando: -Monsieur le Président, si on ne veut pas vivre, on ne vit pas.”

Embora ouvisse as reclamações médicas, não as seguia. Negava-se a parar de fumar. De Lyon, escreveu uma carta para Cláudio Braga:

“Estou concluindo exames médicos, com resultados bem razoáveis, especialmente considerando que não me sujeitei nunca a prescrições”.

Em 6 de dezembro de 1976, Jango morria numa fazenda na Argentina.

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