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SÃO CARLOS

O novo bloco idealizado nos laboratórios do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), interior de São Paulo, é feito com um subproduto da fabricação do ácido fosfórico, matéria-prima usada na produção de fertilizantes agrícolas. O subproduto, que leva o nome de fosfogesso, ou sulfato de cálcio, é equivalente ao gesso mineral, encontrado na forma natural, em minas de gipsita. Destinado à edificação de paredes estruturais, em substituição aos blocos convencionais de concreto e cerâmica, o material apresenta também elevada resistência mecânica, principalmente à flexão.

O novo bloco foi recentemente licenciado pela Agência USP de Inovação para três empresas - Inovamat e KAJ, de São Carlos, no interior paulista, e Mega Block, de Uberaba, em Minas Gerais -, que estão fazendo as adequações finais e o aperfeiçoamento necessário para colocá-lo no mercado. "Os blocos convencionais não possuem resistência à flexão e, com os nossos, é possível usar menos aço e cimento na edificação, o que contribui para a redução do custo da construção", diz João Ailton Brondino, engenheiro civil e administrador da KAJ.

O baixo preço da matéria-prima necessária para assentar os blocos explica também a redução do custo das construções. "Cada bloco é assentado com auxílio de pequenos encaixes e fixados com cola branca, dessas usadas em escola. Não precisamos usar cimento", explica Milton Ferreira de Souza, professor emérito do Instituto de Física de São Carlos e inventor dos blocos de sulfato de cálcio. "Como a superfície lateral dos blocos é perfeitamente lisa, o processo construtivo dispensa o uso de argamassa de assentamento e de reboco, economizando mão de obra de alvenaria." Esses blocos são estruturais, ao contrário dos atuais, que precisam de vigas e pilares de concreto para que a parede fique em pé. Cimento, só no contrapiso e laje. O uso da madeira também é reduzido na construção porque não há necessidade de fazer formas para pilares e vigas, o que contribui para a redução do custo da obra. Além disso, a característica modular dos blocos diminui para quase zero o desperdício.

O fosfogesso, hoje um passivo ambiental, é gerado em grandes quantidades na produção de fertilizantes fosfatados. "Estima-se que existam mais de 160 milhões de toneladas de fosfogesso dispostas em aterros a céu aberto no Brasil. A fabricação em larga escala dos blocos de sulfato de cálcio dará uma destinação ambientalmente adequada e economicamente interessante para esse material", diz Brondino, da KAJ, acrescentando que o produto é 100% reciclável. "Acreditamos que as empresas que utilizam essa nova tecnologia possam obter créditos de carbono por utilizar menos cimento e aço nas edificações", afirma Brondino.

Quatro patentes relacionadas ao produto e seu processo de fabricação foram depositadas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Três edificações-protótipo - um anfiteatro e duas casas, de 60 e 56 metros quadrados, respectivamente - já foram construídas com os novos blocos, pelas empresas licenciadas em São Carlos. Para receber financiamento de bancos e da CEF, será preciso uma aprovação técnica e a consequente certificação para os novos blocos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) ou no Centro Tecnológico Falcão Bauer. Brondino estima que poderá iniciar a venda dos blocos aos consumidores finais ainda no primeiro semestre de 2013.