Em São Paulo, empresários estão investindo em casas de jazz durante uma das maiores crises econômicas da história do País. Apesar dos desafios impostos pela recessão, as apostas estão dando certo.

É o caso do Tupi or not Tupi, na Vila Madalena. Aberto no começo do ano passado, o espaço já recebeu Ivan Lins, Rosa Passos, João Donato e outros grandes nomes da música brasileira. “Tivemos um bom começo. Conseguimos crescer e temos muitos planos para 2018”, diz Angela Soares, sócia da Tupi.

Para manter as contas em ordem, a empresária aluga o ambiente para eventos e reuniões durante o dia. À noite, além de receber as apresentações dos artistas, a casa funciona como restaurante. “Sem essas atividades extras, não conseguiríamos segurar o orçamento”, afirma.

Na visão de Angela, há espaço para mais lugares como o Tupi em São Paulo. “Existe uma carência por casas que toquem música instrumental, choro, samba, jazz”. Prova disso, diz ela, é o desempenho do local, que ainda não completou um ano de vida. “Estamos recebendo um número relevante de espectadores e o apoio dos músicos”, afirma a empresária.

Suspensa para as festas de final de ano, a atividade noturna da Tupi volta no dia 19, com apresentação da cantora Mônica Salmaso.

Nos fundos

O plano de Maximo Levy também parecia arriscado. Ele abriu a nova casa do Jazz nos Fundos em julho de 2016, no meio da recessão. Segundo o empresário, os primeiros meses foram difíceis, mas a situação melhorou recentemente.

“A crise não passou batido por ninguém. No começo foi complicado, tivemos que nos esforçar mais porque o consumo [na casa] estava baixo. Mas hoje as coisas já estão melhores, temos uma procura maior e mais movimento.”

E o investimento continuou durante 2017. “Trabalhamos com vários projetos, como uma cozinha nova, e agora temos expectativas felizes para 2018”, afirma Levy.

A nova casa do Jazz nos Fundos fica em Pinheiros, a alguns metros da propriedade antiga, e é bem maior que a antecessora. Assim como o Tupi, o Jazz nos Fundos depende de outras fontes de renda para sobreviver. “Às vezes alugamos o espaço, fazemos trabalhos de curadoria externa e ainda temos a venda de comidas e bebidas”, diz o empresário.

Levy também está à frente do Jazz B, que recebe shows em um espaço um pouco menor, na República. A casa foi aberta em 2013, quando o Jazz nos Fundos completava sete anos de vida.

Na opinião dele, existe demanda para shows do gênero em São Paulo. “[O jazz] não é uma área fácil, o público é um pouco seleto, mas com certeza há procura por esse tipo de trabalho”, afirma.

A lista de artistas que o Jazz nos Fundos e o Jazz B receberam nos últimos anos é extensa. Entre os brasileiros, já se apresentaram Hamilton de Holanda, André Mehmari, Nelson Ayres e o Trio Corrente. Do exterior, vieram, entre outros, o pianista cubano Pepe Cisneros, o guitarrista americano Mike Moreno e a clarinetista israelense Anat Cohen.

Novidade

A quantidade de opções para quem gosta de jazz vai aumentar mais neste ano. Em junho, a Blue Note, que já tem casas em Nova York, Milão, Tóquio e Rio de Janeiro, vai abrir uma filial em São Paulo, em local ainda não definido.

“Começamos no Rio de Janeiro, no ano passado, porque boa parte dos turistas está lá e a casa tem um nome reconhecido internacionalmente”, afirma Daniel Stain, CEO da Blue Note no Brasil.

O empresário vê um “aumento vertiginoso” do número de shows e festivais de jazz pelo País, o que garantiu a vinda da casa para São Paulo. “Percebemos uma demanda bastante grande atualmente, inclusive das pessoas mais jovens.”

Segundo ele, um dos principais desafios econômicos da Blue Note é trazer grandes nomes do jazz para o Brasil com o real desvalorizado. “O dólar está muito alto e nós não podemos repassar esse valor para os clientes, que estão se recuperando da crise.”

Stain diz ainda que o investimento no período de crise é estratégico, pois ajuda a “formar” o público que acompanhará o trabalho da casa durante os próximos anos. “Quando a economia estiver mais forte, o local já terá um nome estabelecido e poderá aproveitar essa fase melhor.”