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A proposta do Estado de despoluir o Rio Pinheiros e de revitalizar seu entorno até 2022 pode ser um desafio. Segundo especialistas, devido aos custos, alta demanda tecnológica e a pouca eficácia das redes de saneamento dos municípios, será complicado cumprir o plano no período.

De acordo com o professor do curso de engenharia ambiental e sanitária da Universidade Metodista de São Paulo Carlos Henrique Andrade de Oliveira, os projetos de despoluição de rios paulistas existem há quase 30 anos. Entretanto, o docente explica que, como os processos envolvem muitas aplicações técnicas e grandes custos, nenhum projeto obteve sucesso.

A decisão de despoluir Pinheiros e de revitalizar a região no entorno foi anunciada pelo governador João Doria no último mês. A intenção é atrair às margens restaurantes, cafés e outros estabelecimentos voltados ao entretenimento. Além disso, o Estado quer ampliar o número de áreas públicas no local.

Segundo o governador, o objetivo é criar um Puerto Madero paulistano – uma referência a área portuária de Buenos Aires, na Argentina.

Oliveira considera que, para fazer o projeto dar certo, o Estado também precisa investir no tratamento de esgoto, na destinação correta de resíduos sólidos e na drenagem pluvial da cidade, que também polui os rios.

Para o especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie Magno Botelho, 2022 é um período muito próximo para conseguir concluir todas as propostas. “O que vai ser possível é a realização de uma limpeza superficial, mas o rio vai continuar poluído”, diz.

Botelho acredita que entre os desafios em despoluir os rios paulistas está o fato de os governos realizarem políticas de gestão e não de Estado. Ou seja, segundo ele, como a melhora do sistema de águas é um projeto longo e não tem tanto apelo eleitoral, medidas eficientes não costumam ser tomadas.

Municípios

Outro obstáculo, segundo o Botelho, é a negociação com os diversos municípios que também poluem o rio. Ele explica que cada cidade tem níveis de desenvolvimento diferentes em relação ao tratamento de esgoto.

“Em Guarulhos, por exemplo, a situação do esgoto é um pouco pior, o que demanda acordos e investimentos diferentes.”

Para o professor de engenharia civil do Instituto Mauá de Tecnologia Carlos Alberto de Moya, o ideal seria o projeto seguir um planejamento considerando toda a região metropolitana.

“Isso pode favorecer que um município que não seja atendido pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) se engaje na proposta.”

De acordo com Moya, a ação anunciada por Doria é uma continuidade e complementação de projetos já iniciados em gestões anteriores. Segundo ele, isso faz com que seja possível efetuar a limpeza do rio – mesmo que não completamente – até 2022.

Segundo Botelho, do Mackenzie, se a limpeza, mesmo que superficial, acontecer até 2022, vai ficar mais fácil para o Estado atrair a iniciativa privada.

Isso porque, um dos principais objetivos do governo ao revitalizar a área é fazer a concessão da Usina Traição, localizada no Rio Pinheiros. A previsão de Doria é que o local seja concedido ao privado em 2021. Parte dos recursos da despoluição também deverão vir do setor privado. As empresas vão poder explorar o transporte turístico de passageiros.