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As relações políticas entre municípios e as pausas e retomadas do projeto Trem Intercidades (TIC) nas diferentes gestões do governo do Estado e das cidades colaboraram para que os processos de implementação da iniciativa perdurassem por seis anos.

A conclusão é da diretora executiva da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), Roberta Marchesi. “Um projeto como esse que envolve um trem de alta velocidade, uma distância maior entre as estações e uma relação entre diversos municípios é difícil de manter todas as gestões de governo interessadas”, diz.

O TIC voltou para as pautas de prioridade do governo do Estado na gestão de João Doria, que reiniciou as reuniões de viabilização do projeto junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O projeto tem o objetivo de ligar a capital de São Paulo com os municípios de Jundiaí, Louveira, Vinhedo, Valinhos, Campinas, Sumaré, Nova Odessa e Americana, totalizando nove estações e 135 quilómetros de extensão. Foi uma das principais bandeiras da gestão do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) entre 2011 e abril de 2018, mas nunca saiu do papel.

Os estudos para a implementação do trem começaram em janeiro de 2013 e foram entregues em julho do mesmo ano. Na época, foi constatado que a demanda diária de passageiros para o TIC seria de 60 mil pessoas.

Em resposta ao DCI, mesmo que o tema tenha sido retomado pela gestão Doria, as prefeituras de Jundiaí e Campinas, primeiro trecho do trajeto ferroviário, informaram não estarem muito à par das novidades da iniciativa. Nem em relação aos possíveis locais que servirão como estações ou de quando o projeto vai ser iniciado.

Ainda que não saiba muito a respeito, o secretário de desenvolvimento econômico, social e de turismo de Campinas, André von Zuben, vê a iniciativa com otimismo. “Do ponto de vista econômico, o projeto vai ajudar muito as cidades do trajeto. Para Campinas, seria melhor que o trem passasse pelo aeroporto de Viracopos”, diz.

Ainda não é certo como o governo deve estabelecer o trajeto da linha TIC. Se o projeto original de 2013 for mantido, as linhas férreas federais, que circulam trens de cargas pela região metropolitana de São Paulo, serão reaproveitadas. Fator que limita a liberdade dos municípios na escolha de locais para serem estações.

O compartilhamento das ferrovias federais com o Estado também pode ser considerado um dos obstáculos para a implementação do projeto, segundo o professor do departamento de geotecnia e transportes da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Carlos Alberto Bandeira Guimarães.

Ele explica que a forma como serão divididas as linhas pode impactar nos custos do projeto e no interesse de concessionários para a pareceria público-privada (PPP), que é de interesse do Estado.

Em 2013, o governo paulista estimou que a implementação do TIC seria de R$ 5,4 bilhões. Na PPP, a máquina pública iria contribuir com um aporte de R$ 1,8 bilhão e uma contraprestação anual de R$ 262 milhões durante 32 anos.

Otimismo

Segundo Roberta, da ANPTrilhos, o setor está confiante com a retomada do TIC neste ano. “Quando o governo conseguir implantar o projeto, vai ser uma porta aberta para que outros Estados também façam iniciativas como essa”, afirma.

Segundo ela, quando implementado, o TIC vai beneficiar os usuários com redução do tempo de deslocamento, com mais conforto e com um preço acessível. Além disso, ela explica que o projeto também vai impactar economicamente comerciantes e prestadores de serviços das cidades contempladas pelo trajeto.

“A iniciativa vai fazer a economia local girar. As pessoas vão ficar interessadas em desembarcar nas diferentes estações e conhecer o entorno. Vão movimentar os bares, as lojas e os locais que oferecem passeios em família. Os imóveis próximos das linhas também tendem a se valorizar”, explica.

Roberta também considera que o TIC pode abrir concorrência com as empresas aéreas e com companhias de ônibus fretados. “Vão ter opções para todos os bolsos”, diz.