Publicado em

Caminhões, ônibus e vans têm ou não têm condições técnicas de trafegar na pista de descida da Imigrantes? A restrição sempre pareceu sem sentido. Afinal, a pista de descida da Imigrantes tem extensão e declividade praticamente idênticas às da Anchieta: 11 km e 6%. As diferenças estão no traçado e no comprimento dos túneis. A sinuosidade da Anchieta faz com que a velocidade máxima dos veículos mais rápidos não ultrapasse o dobro da velocidade dos mais lentos. E os túneis mais longos da Imigrantes tornam o nível de risco de acidentes dentro deles por superaquecimento de freios muito maior.

Vamos combinar que não são dois fatores que coloquem uma diferenciação dramática entre as duas pistas.

A Agência de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp), a Ecovias, concessionária do sistema Anchieta - Imigrantes e a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defendem tecnicamente, em função dos dois fatores, a restrição de utilização da pista da Imigrantes por veículos comerciais. É importante observar que a argumentação está sustentada por exaustivas baterias de testes realizados em 2001, antes da inauguração da estrada.

Muita gente entende que construir uma estrada que liga os principais polos exportadores e importadores do país ao porto mais importante do hemisfério Sul que não permite o trânsito de caminhões constitui uma enorme barbeiragem. Até recentemente, entretanto, havia um certo conformismo com essa situação.

Com os megacongestionamentos da Via Anchieta provocados pelo escoamento da safra de grãos deste ano, essa aceitação evaporou. A vida das milhares de pessoas que moram no litoral e trabalham na Grande São Paulo - e vice-versa - se transformou num inferno.

E a restrição passou a ser questionada.

Faz algumas semanas a Ecovias e a Artesp anunciaram estudos para tornar uma das pistas da Anchieta exclusiva para ônibus. A partir de 10 de outubro a medida vai ser implantada nos dias úteis das 18 às 20 horas.

Trata-se de uma tentativa de reduzir a insatisfação de usuários de uma estrada que cobra o pedágio mais caro do Brasil.

A faixa exclusiva será obtida com o sacrifício, nesse período, dos caminhões mais rápidos. As ultrapassagens de caminhões ficam proibidas. Os caminhoneiros terão de trafegar em fila indiana na pista da direita.

Uma parcela dos usuários vê com certo descrédito a implantação dessa medida. Entendem que se não houver fiscalização muito rigorosa, os caminhões não vão respeitar a faixa exclusiva.

Outra parcela olha a novidade com expectativa positiva.

Otimistas e pessimistas, entretanto, concordam num ponto. Trata-se da injustiça da restrição da Imigrantes ser absoluta, abranger todos os veículos comerciais. Isso porque já se passou um período de 12 anos dos testes realizados. Os sistemas de frenagem evoluíram muito tecnicamente.

É evidente que a modernização não beneficia toda a frota.

Mas a Ecovias e a Artesp não conseguirão explicar por que os veículos mais modernos, em condições de descer a Imigrantes com segurança são penalizados junto com os mais antigos ou menos sofisticados que não têm essa condição.