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Dois terços da população paulistana acreditam que os negros têm menos oportunidades no mercado de trabalho do que os brancos. Essa foi uma das conclusões de um trabalho divulgado ontem (13) pela Rede Nossa São Paulo.

O levantamento, realizado em conjunto com o Ibope Inteligência, mostrou que, quando é considerada apenas a opinião de negros e pardos, a impressão sobre a desigualdade é maior: 73% deles acreditam ter menos oportunidades do que os brancos no mercado de trabalho.

A pesquisa também indicou que sete em cada dez pessoas que moram em São Paulo acreditam que o racismo não recuou na cidade nos últimos 10 anos. Para 40%, o preconceito racial se manteve igual. Para 30%, o quadro piorou. Outros 25% viram uma melhora e 5% não souberam responder.

Mais uma vez, a percepção de negros e pardos sobre o tema é pior. Para 77% deles, o preconceito e a discriminação aumentaram (39%) ou ficaram no mesmo patamar (38%) na última década. O percentual dos que consideram que houve queda é de 19%.

Já entre os brancos, 23% acham que houve crescimento do racismo e 42% disseram que situação permanece igual. Para 29% deles, o problema diminuiu durante os últimos 10 anos.

O perfil das pessoas consultadas para a construção do levantamento corrobora com a impressão de que o racismo segue com força na capital do estado.

Na lista de entrevistados, apenas 3% dos pretos e pardos fazem parte da Classe A (pessoas de renda mais alta). Entre os brancos, esse índice é cinco vezes maior, chegando a 15%.

Os dados se invertem na base da pirâmide social, onde estão os mais pobres. Apenas 4% dos brancos entrevistados pertencem às classes D e , percentual quatro vezes menor que o visto entre pretos e pardos (12%).

O levantamento entrevistou 800 moradores de São Paulo, todos com idade superior a 16 anos. O intervalo de confiança é de 95% e a margem de erro máxima estimada é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Racismo disseminado

A pesquisa “Relações Raciais na Cidade” também indicou que a percepção do preconceito é comum em diversos estabelecimentos na capital.

Dois terços (66%) dos entrevistados disseram ver diferença no tratamento dado a negros em shoppings e estabelecimentos comerciais paulistanos, enquanto outros 62% afirmaram perceber o racismo no trabalho. O preconceito foi percebido mesmo no ambiente familiar (25%) e no local de moradia (45%).

Sobre a atitude da Prefeitura em relação ao problema, 77% dos consultados disseram que a administração municipal “não tem feito nada” ou “tem feito pouco”. Apenas 10% afirmaram que a Prefeitura “tem feito muito” para combater o racismo na cidade.

Gestor da Rede Nossa São Paulo, Américo Sampaio afirma que a falta de políticas públicas que combatam o racismo é um dos motivos para a população não ver um esforço da Prefeitura nesse sentido. “Além disso, não encontramos negros em altos cargos na administração municipal”, acrescenta ele.

“O João Doria passou mais de um ano como prefeito, você se lembra de algum esforço, ou mesmo alguma fala, direcionado a combater o racismo em São Paulo?”, questiona Sampaio sobre a atuação do ex-prefeito e governador eleito de São Paulo.