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O Brasil faz escolhas erradas. Paga a conta por essas escolhas e volta a fazer escolhas erradas mais adiante. Quando se trata de pensar no futuro, o berço esplêndido revela-se um sonho não correspondido. Entre os diversos estudos e pesquisas sobre comportamento que conduzimos, tivemos a oportunidade de conhecer melhor como pensam, agem, consomem, esperam e angustiam os jovens brasileiros, entre 18 e 32 anos. Os resultados impressionam pelas contradições, vontades não correspondidas e pelas expectativas incertas, mas convergentes.

À primeira vista, nossos jovens parecem originários de algum ponto de décadas atrás. Em um recorte que vai das classes A à C2, a casa própria é importante para 94%, o carro particular é importante ou muito importante para 74%, e o plano de saúde é um objetivo para 87%. Nossos jovens querem segurança. Por outro lado, o smartphone é essencial para 90%, o que os leva a consumir filmes e séries neste dispositivo (63% escolhem o celular para esse tipo de entretenimento). Eles são conectados, querem modificar o ambiente de negócios, viajar, assumir propósitos e influenciar o mundo de forma positiva.

A noção de risco não está clara para eles. Percebam também como o país de ilusão construído no princípio do século à custa de propaganda, oratória, boom das commodities, crédito irresponsável e bancos oficiais anabolizados deu lugar a uma realidade conhecida pela geração que sobreviveu aos anos 80, conhecidos como “década perdida”.

As gerações Y e Z adotam com entusiasmo noções de economia compartilhada e veem nas viagens uma válvula de escape para o desencanto de um país que perdeu, ou melhor, deixou de oferecer um rumo.

Poderíamos inferir que estes sentimentos contraditórios são terreno fértil para cultivar inclinações populistas, autoritárias ou carregadas de simplificações. Prefiro pensar que temos um compromisso em canalizar essa energia transformadora na construção de um país capaz de responder melhor aos desafios da atualidade.

O trabalho é o principal desses desafios – ao invés de discussões bizantinas como a validade da terceirização (imprescindível) e a função da Justiça do Trabalho deveríamos estar discutindo como formar profissionais para atividades que ainda não existem. Caso contrário, estaremos criando uma legião de “não-empregáveis” (na definição do historiador Yuval Noah Harari) – pessoas sem condições de assumirem as mais rasas funções, pois exigirão habilidades digitais, criativas e intelectuais.

Outro dado chama a atenção: apenas 34% estão satisfeitos com seu trabalho, enquanto 50% querem empreender ou ter seu negócio próprio, pois acreditam que as empresas só pensam em ganhar dinheiro (55%). Segundo os dados, e não por acaso, 60% avaliam que empresas da economia compartilhada geram impacto positivo no mundo. Os jovens são transformadores, mas o veículo da mudança são as empresas. Não os governos.

Jacques Meir é publicitário e diretor executivo de conhecimento do Centro de Inteligência Padrão (CIP)

jacques@gpadrao.com.br