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O número de usuários de crack na capital não diminuiu após a ação conjunta da Prefeitura e do Governo do Estado, realizada em maio de 2017. Naquela ocasião, o prefeito João Doria chegou a dizer que a cracolândia estava acabada.

Segundo especialistas consultados pelo DCI, grande parte dos usuários deixou a região da Luz e se espalhou pela cidade, causando o aumento de outras cracolândias. “Algumas concentrações [de pessoas] surgiram e outras aumentaram”, diz Marcelo de Mesquita Spinola, vice-presidente do conselho curador da Fundação Porta Aberta, instituição que trabalha com o tratamento e a ressocialização dos usuários. De acordo com o entrevistado, existem “novas cracolândias” na Vila Leopoldina e nas avenidas Roberto Marinho e Radial Leste.

Ele também afirma que o trabalho dos assistentes sociais foi prejudicado pela operação realizada no ano passado. “Houve um esforço de anos naquela região [da Luz] para a construção de um vínculo entre os técnicos e os usuários. Após a ação, notamos uma quebra de confiança. O usuário não sabe mais se o agente social está ligado à polícia ou não”, diz Spinola.

O fechamento de hotéis do programa Braços Abertos, instalados durante a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, também foi prejudicial para os usuários, afirma Mauro Aranha, coordenador do Departamento Jurídico do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). “Nem todas as pessoas que residiam nesses locais foram acolhidas em equipamentos substitutivos”, diz o especialista. Ao menos dois hotéis do Braços Abertos foram fechados pela gestão Doria desde o início do ano.

Na opinião de Aranha, o atual prefeito teve sucesso na “recuperação imobiliária” da região da Luz, mas não encontrou o mesmo êxito no tratamento dos usuários. “Nada indica que houve uma alteração no número de pessoas que usam o crack. Elas continuam com os mesmos problemas, mas agora em regiões espalhadas por toda a cidade.”

Aranha também critica a “abordagem repressiva” do governo na área da Rua Helvétia e Alameda Dino Bueno. “Desde aquela primeira operação [em maio de 2017] vemos ações truculentas na região, com o uso da PM [Polícia Militar] e da GCM [Guarda Civil Metropolitana] para afastar os usuários”, diz ele.

Por outro lado, o representante da Cremesp afirma que a situação pode melhorar após a assinatura de um termo de ajustamento de conduta que está sendo negociado pelo Ministério Público, a Defensoria Pública e a Prefeitura. “Esse termo estabelece que os pacientes, ao serem internados para desintoxicação, sejam ajudados a se reaproximar de suas famílias e de suas comunidades. Sem essa medida, as pessoas recém-recuperadas acabam voltando à situação de rua e correm um risco maior de voltar a usar drogas”, explica Aranha.

Redenção

Para os especialistas, o programa Redenção, principal projeto da gestão Doria para lidar com o uso de crack, traz boas propostas, mas enfrenta dificuldades por contar com poucos assistentes sociais e falta de estrutura.

“Foram criadas algumas áreas em que os usuários podem dormir, tomar banho e receber alguns cuidados, mas o número de técnicos contratados é pequeno e essas áreas ainda são insuficientes”, avalia Spinola. “É necessário um maior investimento nesse tipo de programa ou essa situação não vai mudar.”