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A falta de informações por parte da prefeitura sobre os impactos da transformação do Elevado Presidente João Goulart, ou Minhocão, em parque divide a opinião de especialistas e do Ministério Público.

“Não sabemos se a função do elevado enquanto via de acesso entre as regiões central e oeste é realmente dispensável. Não sabemos quais os trajetos alternativos que supririam a demanda de carros e não sabemos quase nada sobre o projeto”, diz o vice presidente de arquitetura da regional São Paulo do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco), Eduardo Nardelli.

A prefeitura anunciou a implementação do parque do Minhocão na última quinta-feira (21). Em nota, a assessoria informou que o governo deverá investir R$ 38 milhões para a obra que pretende entregar até dezembro de 2020.

A ação vai ser realizada em três etapas (implementação de segurança, acessibilidade e a construção do parque). Serão 17,5 mil metros quadrados de jardins e deques.

Mesmo que a prefeitura tenha decidido a maneira que pretende desenvolver o local, comparando a obra com parques elevados internacionais, como a Coullée Verte René-Dumont, em Paris, e o High Line, em Nova York, nenhum estudo sobre a viabilidade do projeto foi divulgado até o momento.

No dia seguinte ao anúncio da iniciativa, o Ministério Público notificou a Secretaria Municipal de Urbanismo exigindo esclarecimentos sobre as consequências da obra no trânsito da cidade. Nesta terça-feira (27), a prefeitura teve que apresentar o que a desativação do Minhocão para carros pode impactar na mobilidade da cidade.

Segundo Nardelli, os projetos internacionais que inspiraram a prefeitura eram locais menores e obsoletos antes de se tornarem parques, o que não ocorre com este elevado. “Não tinham a mesma funcionalidade do Minhocão que, quando ‘revitalizado’, vai ser ótimo para quem mora nos andares mais altos dos prédios em volta, mas para aqueles que moram embaixo vai ser péssimo, pois terão de lidar com o congestionamento”, diz.

Outro ponto destacado por Nardelli é o alto custo de investimento e de manutenção do local. Segundo ele, antes de iniciar a obra, a prefeitura precisa se certificar que a infraestrutura do Elevado esteja em boas condições, pois a instalação de jardins demanda muitos cuidados com infiltração.

Viabilidade

Mas para o engenheiro e especialista em trânsito e tráfego da Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas, Luiz Vicente, embora o Minhocão receba a movimentação diária de cerca de 62.400 veículos, seu fechamento não vai afetar a mobilidade de forma brusca. “Quando os engenheiros da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) elaborarem trajetos alternativos na cidade, a medida vai ser muito boa”, diz. Ele explica que o projeto pode funcionar como o nova-iorquino High Line, atraindo mais visitantes e valorizando o preço do metro quadrado na região.

Segundo Vicente, manter o Minhocão como via de acesso, como está atualmente, não resolveria o problema do congestionamento na região. Por isso, a conclusão do especialista é que a abertura de um parque seja a melhor escolha.

Para o cofundador do A Vida No Centro, startup focada no Centro da cidade, Clayton Melo, a ideia de fazer um grande parque no local é uma boa forma de revitalizar toda a região e atender ao visitante que, cada vez mais, procura por lazer na proximidade.